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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

"O Que Sua Mão Direita Possui" (Ma Malakat Yameenek)

ANÁLISE DO TERMO

O termo "Ma Malakat Yameenek" literalmente tem os seguintes significados:

- O que sua mão direita possui
- O que você legitimamente tem
- O que você [já] tem
- O que é seu por direito

O termo "Ma Malakat Aimanukum" refere-se a um gênero neutro que é aplicável tanto para homens como para mulheres.

AGORA FAZEMOS EXPLORAR CADA PALAVRA-CHAVE NO TERMO "MA MALAKAT AIMANUKUM"

A palavra "Malakat" tem a raiz meem-laam-kaaf [M-L-K]:

- Possuir algo ou se relacionar com alguém (e você tem exclusividade sobre isso)

Outros significados incluem:

- Ter poder para comandar ou exercer autoridade
- Adquirir
- Assumir
- Casar

Como pode ser visto, um dos significados é "se casar". Isto é de acordo com um dos dicionários mais autênticos da língua árabe [Lisan-ul-Arab por Ibn-Manzoor Vol. 13, página 184]. Outro dicionário autêntico do árabe moderno também descreve esse significado [The Hans Wehrs Dictionary of Modern Written Arabic, página 1081].

De acordo com Lisan-ul-Arab, al-milaak significa

- Casamento
- O vínculo do santo matrimônio

De acordo com o mesmo dicionário, milaakun também significa "Esposa"

A palavra "milkun" que tem "amlaak" plural significa:

- Pessoas
- Terras
- Fortuna
- Riqueza
- Bens imóveis
- Propriedade

A palavra "mulkun" significa:

- Soberania
- Realeza
- Posse
- Direito de posse [o que é legítimo para você]

No termo "Ma Malakat Aimanukum", a palavra MALAKAT está no passado, "O que você já tem", ou "o que você possivelmente possui" ou "o que veio pra você". A palavra, gramaticalmente, não pode ser interpretada como "o que você DEVE possuir" ou "o que VOCÊ TERÁ". A forma futura ou presente dessa palavra é completamente diferente e tem sido usada em vários versículos do Alcorão [5:17, 5:76, 10:31, 13:16, 16:76, 17:56, 19:87, 20:89, 25: 3, 29: 7, 34:22, 34:42, 35:13, 39:43, 43:86, 82:19]

AGORA VEJA A PALAVRA "AIMANUKUM"

A palavra "Aimanun" é o plural de "Yaminun" e significa "mãos certas". A raiz desta palavra é ya-meem-noon [Y-M-N].

A palavra "Yaminun" também significa:

- Uma aliança
- Um juramento

Fala-se sobre esse tipo de pessoa em 24:58 estabelecendo os limites da privacidade dentro de uma casa entre um adulto e o resto de sua família, incluindo Ma Malakat aymanikum que não pode logicamente ser um prisioneiro de guerra ou um escravo. No contexto do casamento, eles também são mencionados separadamente dos escravos/escravas comuns 24:32-33.
Ma malakat aymanikum são, portanto, pessoas que são especiais na sociedade para nós, mas que (ainda) não fazem parte da família.

A expressão "ma malakat aymanukum" foi traduzida pelos tradicionalistas como "escravos/prisioneiros de guerra" quando na verdade a palavra árabe para cativos de guerra é "asra" e o Profeta foi fortemente proibido de manter cativos em guerra (ver 8: 67). Além disso, a escravidão é contra o sistema natural de Deus. Capturar e estuprar mulheres durante um conflito não é um ato de justiça, é um ato de tirania como o povo de Faraó (Por exemplo, veja 2:49). Somente Deus sabe quantas mães, filhas e irmãs foram violadas dessa maneira desde a institucionalização desta tirania no "Taghoot" centenas de anos após a morte do Profeta (Por exemplo, veja Taghoot de Bukhari, Volume 1, Livro do Salat, Hadith N´mero 367, ou para o original árabe, veja http://hadith.al-islam.com/Display/Display.asp?Doc=0&Rec = 622, e muitos outros).

Existem dois tipos de relações familiares no Alcorão:

1. "Ulu al korba": aqueles relacionados a você biologicamente.

2 "Ma Malakat Yameenek": aqueles relacionados a você pelo seu juramento ou compromisso sério. No caso de um homem ou uma mulher, é o juramento de noivado para se casar ou o compromisso sério em que estão envolvidos. No caso de um custodiante, este é o juramento de adoção ou apoio financeiro. A seguir estão a lista de versículos em que essa expressão ocorre:

4:3 "Se temerdes ser injustos no trato com os órfãos, podereis desposar duas, três ou quatro das que vos aprouver, entre as mulheres. Mas, se temerdes não poder ser equitativos para com elas, casai, então, com uma só, ou (Ma Malakat Yameenek). Isso é o mais adequado, para evitar que cometais injustiças."  

4:24 "Também vos está vedado desposar as mulheres casadas, salvo (Ma Malakat Yameenek) (mulheres ou homens que já estão comprometidos ou em noivados porém não estão casados). Tal é a lei que Deus vos impõe. Porém, fora do mencionado, está-vos permitido procurar, munidos de vossos bens, esposas castas e não licenciosas. Dotai convenientemente aquelas com quem casardes, porque é um dever; contudo, não sereis recriminados, se fizerdes ou receberdes concessões, fora do que prescreve a lei, porque Deus é Sapiente, Prudentíssimo." 

4:25 "E quem, dentre vós, não possuir recursos suficientes para casar-se com as fiéis livres, poderá fazê-lo com uma crédula, dentre as (Ma Malakat Yameenek), porque Deus é Quem melhor conhece a vossa fé - procedeis uns dos outros; casai com elas, com a permissão dos seus tutores, e dotai-as convenientemente, desde que sejam castas, não licenciosas e não tenham amantes. Contudo, uma vez casadas, e incorrerem em pecado, sofrerão só a metade do castigo que corresponder às livres; isso, para quem de vós temer cair em pecado. Mas se esperardes, será melhor; sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo."

4:33 A cada qual instituímos a herança de uma parte do que tenham deixado seus pais e parentes. Concedei, (Ma Malakat Yameenek), o seu quinhão, porque Deus é testemunha de tudo. 

4:36 "Adorai a Deus e não Lhe atribuais parceiros. Tratai com benevolência vossos pais e parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro, o viajante e os (Ma Malakat Yameenek), porque Deus não estima arrogante e jactancioso algum. "

16:71 "Deus favoreceu, com a Sua mercê, uns mais do que outros; porém, os favorecidos não repartem os seus bens com os seus (Ma Malakat Yameenek), para que com isso sejam iguais. Desagradecerão, acaso, as mercês de Deus!"

23:5 "Que observam a castidade,"
6 "Exceto para os seus cônjuges ou (Ma Malakat Yameenek) — nisso não serão reprovados."

24:31 "Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos que (normalmente) aparecem; que cubram o colo com seus véus e não mostrem os seus atrativos, a não ser aos seus esposos, seus pais, seus sogros, seus filhos, seus enteados, seus irmãos, seus sobrinhos, às mulheres suas servas, os (Ma Malakat Yameenek), ou às crianças que não discernem a nudez das mulheres; que não agitem os seus pés, para que não chamem à atenção sobre seus atrativos ocultos. Ó fiéis, voltai-vos todos, arrependidos, a Deus, a fim de que vos salveis!"

24:33 "Aquele que não possui recurso para casar-se, que aguarde, até que Deus o enriqueça com a Sua graça. E aqueles, entre os quais sua mão direita possui (Ma Malakat Yameenek), que procuram um contrato - então, faça um contrato com eles, se você souber que há Deus dentro deles, e dê-lhes da riqueza que Ele lhe deu. Não inciteis as à prostituição, para proporcionar-vos o gozo transitório da vida terrena, sendo que elas querem viver castamente. Mas se alguém as compelir, Deus as perdoará por terem sido compelidas, porque é Indulgente, Misericordiosíssimo."

24:58 Ó fiéis, que os (Ma Malakat Yameenek) e aqueles que ainda não alcançaram a puberdade vos peçam permissão (para vos abordar), em três ocasiões: antes da oração da alvorada; quando tirardes as vestes para a sesta; e depois da oração da noite — três ocasiões de vossa intimidade. Fora disto, não sereis, nem vós, nem eles recriminados, se vos visitardes mutuamente. Assim Deus vos elucida os versículos, porque é Sapiente, Prudentíssimo."

30:28 "Apresenta-vos, ainda, um exemplo tomado de vós mesmos. Porventura, compartilharíeis (Ma Malakat Yameenek) parceiros naquilo de que vos temos agraciado e lhe concederíeis partes iguais ás vossas? Temei-osacaso, do mesmo modo que temeis uns aos outros? Assim elucidamos os Nossos versículos aos sensatos."

33:50 "Ó Profeta, em verdade, tornamos lícitas, para ti as esposas que tenhas dotado, assim como as (Ma Malakat Yameenek), que Deus tenha feito cair em tuas mãos, as filhas de teus tios e tias paternas, as filhas de teus tios e tiasmaternas, que migraram contigo, bem como toda a mulher fiel que se dedicar ao Profeta, por gosto, e uma vez que o Profetaqueira desposá-la; este é um privilégio exclusivo teu, vedado aos demais fiéis. Bem sabemos o que lhes impusemos (aos demais), em relação às suas esposas e às que suas mãos direita possuem, a fim de que não haja inconveniente algum para ti. E Deus é Indulgente, Misericordioso."

52 "Alem dessas não te será permitido casares com outras, nem trocá-las por outras mulheres, ainda que suas belezas te encantarem, com exceção das (Ma Malakat Yameenek). E Deus é Observador de tudo."

33:55 "Não serão recriminadas (se aparecerem a descoberto) perante seus pais, seus filhos, seus irmãos, seus sobrinhos, perante suas mulheres crentes ou os as (Ma Malakat Yameenek). E temei a Deus, porque Ele é Testemunha de tudo."

70:29 "São aqueles que observam a castidade,"
30 "Exceto para com as esposas, ou (Ma Malakat Yameenek) — nisso não serão reprovados."

Conclusão:

Eles não podem ser escravos ou prisioneiros porque 1- Ninguém em sã consciência levaria prisioneiros para dentro de suas casas, deixaria suas mulheres serem vistas nuas por eles, ou teriam relacionamentos sexuais (fora do casamento) com uma prisioneira(o) ou escrava(o). 2- A escravidão é proibida pelo Alcorão. 3- Não temos obrigação em (dividir) nosso bens com escravos, prisioneiros ou servos. 4- O Profeta não tinha contato sexual/íntimo/ou amoroso com escravas ou prisioneiras. É evidente que são pessoas próximas, que não fazem parte de nossa família, mas podemos aparecer nuas ou nus perante eles ou elas, e mesmo ter relações sexuais com eles ou elas fora de um casamento, porque são pessoas com quem temos um compromisso sério. 


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Sexo (entre pessoas solteiras) NÃO É pecado

''E, deste modo ó muçulmanos, constituímo-vos em uma nação de centro..." 2:143

Pretendo através desse artigo, argumentar sobre a permissibilidade do sexo fora do casamento. Aqui estão reunidos partes de vários estudos que li e que achei relevante compartilhar. Espero que todos leiam com a mente aberta e que sejam capazes de entender que, dentro do islã, opiniões divergentes sempre fizeram parte de nossa história. Não existe apenas uma maneira de viver e interpretar o islã, nunca existiu. Tivemos (e temos) comunidades matriarcais, liberais e repressivas (em sua maioria, sim), e caminhamos, assim como a humanidade, ora progredindo, ora regredindo.
O assunto é extenso e não foi possível reproduzi-lo em poucas linhas. Espero que gostem. Paz Tia Polly

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Sexo Para o Prazer e União de Almas


O sexo para muitos muçulmanos, inclusive para mim, não é algo voltado apenas para a manutenção da espécie (pessoas que não podem ter filhos, pessoas do mesmo sexo, que não querem ter filhos, que já passaram da menopausa ou andropausa, também têm direito ao prazer).


De acordo com Marina Juliana de Oliveira Soares, o seguidor do Islã se depara com um forte sentido corporal, pois o corpo e a alma são unos, o asseio do corpo reflete o asseio da alma. Deve-se, portanto “fazer as abluções diárias, ao encostar a cabeça no chão [...] ao buscar satisfação no seu corpo, ao harmonizar seu corpo com a alma” (2009, p. 18).


Segundo Célia Daniele Moreira de Souza, as relações estabelecidas durante a vida, assim como as atividades prazerosas são apenas um reflexo “embaçado” daquilo que se terá na eternidade (2010, p. 2). Sob a visão do muçulmano, a sexualidade não se circunscreve a ser uma atividade do corpo, ela transcende a materialidade, está atrelada à alma: o ato sexual não é apenas uma atividade terrena, mas uma promessa, feita por Alá, para o paraíso (SOUZA, 2010).



Esta é uma obra-prima da literatura árabe, escrita, tanto quanto se sabe, pelo xeque, Umar Ibn Mohammed al-Nezaui e em cuja data de composição os críticos ainda não acordaram: uns colocam-na no século XVI enquanto outros apontam para princípios do séc. XV ou mesmo fins do século XIV. Colocada ao lado do Kama Sutra e tida como um dos poucos e excelentes livros sobre a arte do amor. É uma celebração das múltiplas maneiras em que homem e mulher se podem unir no prazer físico. Um cântico à sensualidade.

Dessa forma, o gozo não se restringiria ao paraíso, estaria acoplado às vivências cotidianas do muçulmano ao longo de sua vida. Abdelwahab Bouhdiba explicita que de modo algum o Islã procura depreciar o sexual, ele lhe confere, pelo contrário: “um sentido grandioso e dá-lhe tamanha investidura transcendental que a sexualidade não se vê penalizada (2006, p. 8)”. Para o autor, a existência islâmica “se fará [...] da alternância e da complementaridade da evocação do verbo divino e do exercício do amor físico (2006, p. 8)”, assim o diálogo com a divindade e o diálogo entre os sexos fazem parte do cotidiano. A prerrogativa de viver sua sexualidade cotidianamente é dada ao muçulmano, segundo Célia Daniele Moreira de Souza, no trecho do Alcorão (assim como há na Bíblia) onde está descrita a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Trecho no qual Alá os envia à terra para que tenham “residência e gozo transitórios”. Marina Soares está em consonância com Souza quando explicita que: “o próprio castigo atribuído a Adão e Eva é sintomático do reconhecimento da corporeidade. ‘Allāh disse: Descei, sendo inimigos uns dos outros. E tereis, na terra, residência e gozo até certo tempo’” (SOARES, 2009, p. 17).

O gozo ao qual se refere o trecho do Alcorão provavelmente é mais do que apenas o deleite sexual, no entanto, pode-se dizer que o prazer do corpo será considerado e permitido, pois admite-se aí um corpo sexuado, ao qual permite-se a busca do gozo. A partir daí surge a necessidade de abordar o tema da sexualidade socialmente, bem como argumenta Bouhdiba: Podemos apreender como, de maneira viva, o sexual se coloca a serviço do social e como este serve àquele. A sociedade muçulmana explora em proveito próprio os ímpetos do mistério sexual e os integra a comportamentos normais e estereotipados. O que poderia tornar-se força inconsciente e ruinosa para a sociedade e para os indivíduos transmuta-se em ritual e em mitos, cristaliza-se e perde, no fundo, todas as suas características mórbidas estranhas e reputadas perigosas. (2006, p. 80/81)




Para Marina Juliana Soares, “é pouco provável que alguma sociedade tenha suscitado mais reflexões sobre a sexualidade humana que a árabe-islâmica, entre os séculos IX e XVI” (2009, p.11). Segundo a autora, não se pode pensar a sexualidade e o erotismo na sociedade islamizada sob o mesmo molde que em outras religiões: “proibição” e “tolerância”, não são palavras que permeiam o discurso sexual islâmico, em dissonância com o Cristianismo. Atribuir-se-á essa diferença de discursos, à fundamentação da possibilidade do gozo sexual, dentro do Islamismo (2009, p. 42). De acordo com Boudihba, o prolongamento da vida, a felicidade e o apaziguamento das tensões estão atrelados à satisfação e a um gozo legítimo: “a visão islâmica do mundo desculpabiliza os sexos, mas faz isso para torná-los disponíveis, um para o outro, para realizar um ‘diálogo dos sexos’ no respeito mútuo e na alegria de viver (2006, p. 48)




Dentro dessa lógica que dá lugar para o deleite foi produzido o livro “Speculum al joder”. Por ter sido escrito em língua árabe, interpreta-se que foi gerado por algum autor influenciado, não só pela medicina árabe, como também pela religião islâmica, dando lugar ao prazer de homens e mulheres: o que no discurso cristão, condenatório ao prazer, isso seria impensável. O “Speculum al Joder” traz, em sua primeira parte, os danos ocasionados ao corpo por ter muitas relações sexuais: “Digo que usar muito das relações sexuais mata o calor natural, acende o calor acidental e enfraquece todos os membros e obras naturais. [...] falha por isso a força, se entristece a pessoa, se fazem pesados seus movimentos [...]” (2000, p. 17).

Há uma relação saudável com o sexo, tratado como parte natural da vida humana: aceita-se que o ato sexual possa debilitar, mas apresenta-se formas de contornar os males advindos do sexo. Esses meios de recuperar o bem-estar passam pela indicação de métodos fáceis e naturais, com atenção para o papel da alimentação no equilíbrio dos humores. Não só encontramos conselhos para sanar as afecções advindas do sexo, como receitas para que o corpo adquira plenas condições físicas de desempenhar sua função sexual e de possibilitar o maior deleite possível.


A partir da teoria dos humores, o livro contra-indica o sexo para certo tipo de pessoas ou prescreve a prática em excesso para outros, baseado no discurso médico e natural. Dessa forma, é o conhecimento que se julga ter do corpo e seus tipos de compleições que vai determinar quem deve ou não exercer intensamente a sua sexualidade. 




CORPO E CARNALIDADE NA PENÍNSULA IBÉRICA DO SÉCULO XIV: ENTRE A DISCIPLINARIZAÇÃO CATÓLICA E A SENSUALIDADE ISLÂMICA  Por Anny Barcelos Mazioli

Homossexualidade


Os muçulmanos não eram heteronormativos, “A homossexualidade só começou a ser reprimida pelos muçulmanos no início do século XX, justamente porque eles não queriam parecer imorais aos olhos do Ocidente puritano, com o qual passaram a ter contato intenso sob o domínio do imperialismo europeu”, diz Peter Stearns. que é é Ph.D. em História pela Harvard University. 


Nem sempre as referências islâmicas ao lesbianismo eram condenatórias. Pelo menos uma dúzia de romances de amor nos quais os amantes são mulheres, é mencionada em "O Livro de Hind", cuja autora era lésbica. O século IX produziu um Tratado do Lesbianismo (Kitab al-Sahhakat), hoje perdido, e obras árabes eróticas posteriores continham capítulos sobre o tema. Esse amor não era limitado pelo gênero. A poesia amorosa homoerótica foi pródiga na Espanha árabe. Seu florescimento na Espanha não foi único, mas deu-se em paralelo com o mundo islâmico em geral. Manifestações líricas semelhantes também agraciaram as cortes do Iraque e da Síria, os jardins da Pérsia, as montanhas do Afeganistão, as planícies do Império Mogol (Índia), os domínios dos turcos otomanos e os estados africanos do Egito, Tunísia e Marrocos. Antologias medievais islâmicas, compiladas em Bagdá, Damasco, Isfahan, Kabul, Délhi, Istambul, Cairo, Kairouan e Fez, revelam, com impressionante consistência e por mais de um milênio, a mesma tendência à paixão homoerótica que encontramos nos poemas de Córdoba, Sevilha e Granada. Então, a religião muçulmana paradoxalmente proibia, permitia e exaltava o desejo homoerótico. Veja mais aqui > Homossexualidade ~ Islã ~ Lei Sharia


Existem muitos estudos e livros de estudiosos muçulmanos e cristãos, que afirmam que o crime de Sodoma e Gomorra não foi o da homossexualidade. Que muitos estudiosos distorceram as escrituras para fazer da homossexualidade algo ruim.


Nomes significativos entre eles, como o estudioso do século VIII, Abu Hanifa, o fundador da popular escola Hanifa de jurisprudência, argumentavam que, como a relação homossexual não produzia filhos com um pai desconhecido, não poderia ser considerada adultério.

"Até mesmo Jesus entendia o pecado de Sodoma como o da falta de hospitalidade (Mateus 10:5-15). Outras passagens da Bíblia afirmam a mesma coisa de maneira bastante clara. Há outras referências bíblicas menos diretas a Sodoma: Isaías 1:10-17 e 3:9, Jeremias 23:14 e Sofonias 2:8-11. Os pecados listados nestas citações são a injustiça, a opressão, a parcialidade, o adultério, as mentiras e o encorajamento dos pecadores. Ainda assim, as pessoas continuam a citar a história de Sodoma para condenar aqueles que são gays e lésbicas."   
Daniel A. Helminiak foi padre por 28 anos. Ph.D. em teologia sistemática pelo Boston College e em psicologia educacional pela Universidade do Texas
Eu tenho muitos textos no blogue referente a homossexualidade, você vai encontrá-los na tag LGBTTTI. Um deles é Como a Bíblia foi Re-Escrita para ATACAR a Homossexualidade 

A passagem referente à Sodoma e Gamorra remete ao costume de hospitalidade ao estrangeiro. Nessas cidades (que eram ricas e abastadas) o estrangeiro era sempre mal visto. E certa feita, dois visitantes chegam à casa de Lot, que como seguidor dos preceitos da hospitalidade, recebe esses estrangeiros (que eram anjos enviados de Deus). Os homens da cidade indignaram-se com essa receptiva e queriam humilhar tais visitantes. A forma de humilhação mais comum nos povos antigos era o atentado ao pudor pela penetração. Lot, no entanto, os protege e chega oferecer uma de suas filhas em troca da integridade dos visitantes. Por conta da hostilidade do povo dessas cidades, os anjos acabam por destruí-las e assim se construiu a narrativa acerca de Sodoma e Gomorra. Na verdade, parece mais tratar-se de um combate ao orgulho e à xenofobia do que a práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo (Nissenen, 1998).


Em outras palavras, a condenação das práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo devia-se mais ao sentido político-identitário da comunidade hebraica. Ainda em Levítico encontramos suporte para essa ideia: “Não procedam (referente às práticas sexuais) como se procede no Egito, onde vocês moraram, nem como se procede na terra de Canaã, para onde os estou levando. Não sigam as suas práticas” (18,3). Claramente, essa norma era regra de diferenciação identitária.


O homoerotismo foi moderadamente exposto e discretamente vivido entre os povos árabes. Isso pode ser explicado porque a homossociabilidade era a regra (homens estabeleciam mais contatos entre homens, enquanto mulheres estabeleciam com mulheres. Havia inclusive separação de espaços sociais nesse sentido). Práticas homoafetivas e homoeróticas ocorriam em vários lugares públicos (por exemplo, em saunas, cafés, tavernas, acampamentos militares). Há referências também que a prática do sexo anal foi difundida nos povos da Ásia pelos árabes. A pederastia clássica também era exercida e a intimidade amigável entre homens era considerada natural e indício de lealdade. Basicamente, mesmo após o florescimento do islamismo, o homoerotismo era tolerável, uma vez que não existia condenação direta em relação a essas práticas, e isso é bastante divulgado na literatura sobre o mundo árabe antigo (Colligan, 2003). O excesso era o fator maior para a categorização do pecado. Entretanto, a sociedade muçulmana trata de tornar esse modo de expressão afetivo-sexual condenável, assim como entre os cristãos.


O comportamento social nas sociedades européias da Idade Média era regido pelas normas da igreja que monopolizava toda forma de saber e interferia no poder real (da nação-Estado). Dessa forma a prática homoerótica é cada vez mais condenável e se torna um exercício velado, até mesmo um protótipo de uma subcultura. Em outras palavras, essas práticas ocorriam (havia até denúncias delas entre nobres, incluindo reis) mas deveriam ser extremamente escondidas (Goodich, 1979).




Revisão histórica e psicossocial das ideologias sexuais e suas expressões Dilcio Dantas Guedes Doutorando do Programa de Pós- Graduação em Psicologia do Desenvolvimento, na Université Paris X, e Mestre em Psicologia, pela Universidade de Fortaleza.


Zina: Sexo praticado publicamente, para conseguir dinheiro para templos, ou práticas de orgias oferecidas para os deuses

Sexo fora de um casamento é chamado zina para a maioria dos muçulmanos. Zina é um termo legal islâmico que se refere a relações sexuais ilegais. Os estudiosos muçulmanos consideraram historicamente o pecado "zinā'a hudud", ou um crime contra Deus. (O próprio fato de que as leis de zina são classificadas como hudud – vistas como “limites de Deus” – fornece a muitos muçulmanos e aos fundamentalistas uma vantagem real, um argumento pronto para rejeitar e denunciar a reforma como “contrária ao Islã”, daí o poder do lema islâmico de “retorno para a shari’a”.)


Mas, o entendimento tradicional de zina como adultério ou fornicação é completamente irracional. Vou provar isso usando o versículo 24: 3. Neste versículo está escrito que é permitido relação sexual "yankiḥu". Tradicionalmente, "yankiḥu" é entendido como casado. Isso também é discutível, mas eu prefiro deixar essa discussão para algum outro tópico e ficar com o significado tradicional do casamento (você é livre para entender isso como um relacionamento por juramento ou o que quer que seja, não vai mudar a prova que vou trazer).


Então, quais combinações são permitidas?


Al-zānī com zāniyatan = permitido

Al-zānī com mush'rikatan = permitido

Resumido "al-zānī" não pode casar com ninguém além de "al-zānī" ou "mush'rikatan". O mush'rikun é geralmente entendido como politeísta.


Agora, para começar, se você é do "l-mu'minīna" e quer se casar, você quer se casar com um fornicador/adúltero? Isso seria muito estranho para começar. Não consigo imaginar alguém que deseje se casar com alguém que seja um adúltero ou um fornicador. É muito irracional fazê-lo. Esta é a primeira prova do  adúltero/fornicador que não faz sentido neste contexto.


Em segundo lugar, há um grande problema em como determinar se alguém é adúltero ou fornicador, se observarmos como isso está estabelecido no verso 24. Isso exige que quatro testemunhas sejam estabelecidas (sem duvidas). Novamente isso não faz nenhum sentido. É altamente improvável que o adultério ou a fornicação seja testemunhada por 4 pessoas diferentes. O adultério/fornicação é geralmente realizado em segredo ou em privado. Isso torna o versículo inteiro sem sentido e não aplicável na realidade. Eu sei que alguns corânicos abusam desse argumento. Eles dizem que é impossível provar ou altamente improvável, então, não precisamos criticar ninguém e o Alcorão não está sugerindo medidas desumanas. Claro que isso é uma lógica falsa baseada em uma compreensão incorreta do que é zina. Conheço os argumentos que eles trazem, dizendo que se refere ao adultério/fornicação em público, mas mesmo que seja totalmente sem sentido. Quem na terra quer se casar com alguém que tenha uma reputação estabelecida de fornicar em público? Exatamente, ninguém.


Em terceiro lugar,


Por que 24:3 apenas menciona o adultério? e o assassinato? o roubo? desvios sexuais de todos os tipos? Se o significado tradicional fosse verdade, isso implicaria que alguém "l-mu'minīna" pode se casar com um ladrão, um pedófilo, um assassino ou mesmo um adorador de ídolos, dado que essa pessoa apenas adora um ídolo e não é um politeísta. O politeísmo e a idolatria não são sinônimos. Aquele que adora apenas um ídolo não é um politeísta.


Compreensão correta da palavra zina


Para entender o que zina realmente significa, vamos primeiro olhar para o significado da palavra fornicação em inglês. Muitas pessoas não percebem que a fornicação nem sempre se refere ao sexo fora do casamento. Existe mesmo em inglês um significado metafórico, que tem raiz na Bíblia. Há um tipo espiritual de adultério/fornicação, a saber, a adoração de ídolos (adoração de uma pessoa ou coisa além de Deus).


A palavra hebraica "zanah" no Antigo Testamento tem esse duplo significado. A palavra grega "porneia" também tem esse significado ambíguo. Agora vamos aplicar esse entendimento à zina árabe e ao Alcorão. Isso tornaria o significado de 24:3 como um adorador de ídolos não pode se casar com nada além de um adorador de ídolos ou um politeísta. Podemos estabelecer com o Alcorão se alguém é um adorador de ídolos usando as 4 testemunhas mencionadas? Sim, a adoração dos ídolos é realizada em público. Não há problema em provar isso usando testemunhas. Isso mostra o quão completo e detalhado é o Alcorão. Deus não negligencia nenhum detalhe. Se você é do "" l-mu'minīna ", não pode se casar com um adorador de ídolos, mesmo que essa pessoa adore apenas um ídolo (como é permitido no entendimento tradicional).


Sabemos que os árabes pré-islâmicos costumavam adorar ídolos e isso era feito em público. Algumas das tribos adoravam um ídolo, outros muitos. Deus nos deu instruções claras aqui sobre como isso é estabelecido e o que é permitido em relação ao "casamento".





E sobre a flagelação como punição por zina?

O Alcorão nos diz que não pode haver constrangimento de crença. Além disso, a flagelação só é referida como uma punição para aqueles que cometem zina, e não com os culpados de politeísmo. Isso revela que zina não está se referindo apenas a qualquer tipo de adoração de ídolos. É um tipo específico de adoração de ídolos. Para entender isso, precisamos olhar a etimologia da palavra "fornicação" em inglês. Também as ocorrências no antigo testamento são reveladoras. A etimologia da palavra inglesa "fornicação" é da palavra latina fornix que significa "bordel". Está se referindo a uma espécie de prostituição. As ocorrências no antigo testamento sempre se referem a uma combinação de promiscuidade sexual e adoração de ídolos. Sabemos que as tribos pré-islâmicas adoraram ídolos. Um desses ídolos era o deus da fertilidade e a adoração desse ídolo incluía sexo grupal ritual com prostitutas. Esta forma de adoração de ídolos não era exclusiva das tribos árabes pré-islâmicas, existia em muitas culturas entre as quais a Suméria, no Egito, entre os romanos e muitos outros. A flagelação não se destina como uma ferramenta para "forçar" qualquer pessoa a acreditar, mas sim uma punição por um comportamento que é considerado imoral e uma abominação nos olhos de Deus (fahisha).


Conclusão


Os al-zānī mencionados no verso 24 são partícipes de um culto que envolveu adoração de ídolos através de sexo grupal e rituais sexuais. O versículo 24:3 não é um conselho de casamento para o "l-mu'minīna", mas sim uma restrição de direitos para os participantes desse tipo de adoração de ídolos. O castigo não é uma ferramenta para forçar alguém a uma crença correta, mas sim um castigo pelo comportamento imoral. Tudo isso tem como objetivo manter o Islã puro e livre de influências pagãs. O verso 24 não nos diz para punir os politeístas por flagelação, apenas aqueles que participam da adoração de ídolos envolvendo rituais sexuais públicos.


Fonte: FreeMinds.Org


(Fornicação (palavra que vem de fornicis, ou fornix: abóbada, ou arco) é uma relação sexual feita de forma imoral. Fornice era o arco da porta sob a qual as prostitutas romanas se exibiam. As mulheres romanas que não tivessem pai, marido ou filho do sexo masculino deveriam ficar sempre dentro dos limites da casa/prédio do seu "dono" ou protetor, por isso, não podiam passar do arco (fornice).


No Novo Testamento, fornicação é o termo usado para traduzir a palavra grega Porneia, termo técnico que designava um matrimônio inválido. Na época de Cristo, com a multiplicidade de leis da Judeia, não era raro que um matrimônio fosse invalidado por impedimento jurídico. Surgia então a questão sobre se dever ou não separar o casal que estava em zonah (casamento inválido, ou seja, quando um deles ou ambos não fossem "puros"). (Virgem em tempos bíblicos, significava uma mulher que era independente, que não tinha marido, como em nossos tempos uma mãe solteira que trabalha fora e é independente.)


Por volta do Século III d.C. criou-se então o verbo "fornicare", que seria o ato de frequentar aquele lugar. Temos esta palavra no português - se originou do latim - que significa sexo ilícito (nesse contexto). O caso é que, no português, há séculos, por conta da igreja, tornou-se ligeiramente diferente porém vital o significado dessa palavra. O significado de sexo ilícito seria supostamente a prática de sexo antes ou fora do casamento. A palavra ilícito significa imoralidade, ou o que é contrário as leis. Naquela época, como foi dito, ante às leis da Judeia, considerava-se ilícita a prática de sexo antes do casamento. Atualmente as regras religiosas e civis foram separadas, de modo que não existe na legislação brasileira nenhuma norma que proíba o sexo antes do casamento, ou ainda que considere inválido esse casamento por um deles não ser mais "virgem". No entanto, para a maioria das denominações do cristianismo, as proibições do sexo antes, e fora do casamento, continuam a existir, embora não tornem um casamento nulo, mas sim anulável. Também não impedem a pessoa que não seja virgem de contrair matrimônio religioso.


Segundo o Dicionário Aurélio, além de sexo ilícito, mortificação ou aborrecimento e apostasia (na época, quando os hebreus mudavam de religião) também significam fornicar. Segundo o dicionário grego há, porém, mais um significado metafórico, que seria a prática de adoração a deuses.)


Há cerca de uma dúzia de passagens no Velho Testamento envolvendo os “qadeshes”, uma palavra para os praticantes da prostituição sagrada, tanto do sexo masculino quanto feminino. No Deuteronômio, os prostitutos e prostitutas são proibidos de levar “à Casa do Senhor” o pagamento que receberam. [...] Ele insiste que as harimtu eram claramente “prostitutas profissionais com conexões cultistas”, que ofereciam um “serviço sexual” em prol do templo. Os sacerdotes atuavam como cafetões e coletavam parte dos lucros. Esses bordéis sagrados provavelmente também existiam na Grécia, especificamente no Templo de Afrodite, em Corinto, como acreditam os acadêmicos. Ele ficava empoleirado em uma escarpa rochosa a 575 metros acima do nível do mar. Veja mais aqui > Historiadores buscam verdade sobre prostituição nos templos da antiguidade




24:2 A ZANIA e o ZANI, você deve chicotar cada um deles com cem chicotadas, e não deixe nenhuma pena sobre você sobre o sistema de Deus se você acreditar em Deus e no último dia. E deixe um grupo de crentes testemunhar o seu castigo.
24:3 O ZANI só se casará com um ZANIA ou com uma politeísta. E a ZANIA, ela só será casada com um ZANI ou com o politeísta. E isso foi proibido para os crentes.

A menos que você tome a raiz Zay-Nun-Ya ou Fa-Ha-Shin literalmente como sexo pré-marital, a proibição do sexo antes do casamento não é declarada no Alcorão. Também não há versos no Alcorão, onde o sexo é exclusivo entre pessoas casadas. Assim, o sexo não é apenas para pessoas casadas e pode, sim, ser feito fora do casamento. O fato de que o sexo não seja explicitamente proibido, não significa que esteja certo ter relações sexuais com qualquer um sob qualquer circunstância. O Alcorão coloca restrições e limitações que impedem esse cenário. Há duas limitações que vou apontar:


A primeira limitação está nos seguintes versículos de 23:5-6


23:5 E eles cobrem suas partes privadas.

23:6 Exceto em torno de seus cônjuges (azwaaj), ou com aqueles (as) que são permitidos (as) (ma malakat aymanukum), eles as são livres de culpa.
23:7 Mas quem procura qualquer coisa além disto, estes, são os transgressores.

A partir desses versículos, é claro que, apenas dois tipos de pessoas devem ter acesso às suas partes privadas: Seu cônjuge (Azwaaj) e aqueles que estão comprometidos e são permitidos para você (ma malakat aymanukum). Assim, o sexo só pode ser feito com aquelas duas categorias de pessoas.


É aqui que entra a segunda limitação:


Fa-Ha-Shin, que tem os seguintes significados:

Tornar-se excessivo/imoderado/enorme/exorbitante/excesso/além da medida/sujo/mau/maligno/indecente/indecência/abominável/lúbrico/grosseiro/obsceno/cometer algum excesso que é proibido/transgredir barreiras/limites/avaro/adultério/fornicação.

Um exemplo do uso do Fa-Ha-Shin pode ser visto em 17:32 e não se aproxime do adultério, pois é lascívia e um caminho maligno.


Uma possível objeção ao meu argumento, é o seguinte versículo: 24:33


"E que aqueles que não podem se casar, que continuem castos até que Deus os enriqueça com Sua Bênção.."


Na tradução/interpretação tradicional, fala-se para nos mantermos castos se não temos condições financeiras para o casamento, que não devemos ter relações sexuais até nos casarmos. Eu não concordo com esta tradução e compreensão pelo seguinte motivo:


Se você olhar para o original em árabe, não está escrito (permaneçam castos), a palavra é (abstenham-se) e em algumas traduções para o inglês eles colocaram entre aspas (relações sexuais)

But let them who find not [the means for] marriage abstain [from sexual relations] until Allah enriches them from His bounty. And those who seek a contract [for eventual emancipation] from among whom your right hands possess (Ma Malakat Yameenek) - then make a contract with them if you know there is within them goodness and give them from the wealth of Allah which He has given you. And do not compel your slave girls to prostitution, if they desire chastity, to seek [thereby] the temporary interests of worldly life. And if someone should compel them, then indeed, Allah is [to them], after their compulsion, Forgiving and Merciful.
Mas, relações sexuais não está lá, veja o versículo em sua correta tradução: 24:33 Aquele que não possui recurso para casar-se, que se abstenha, até que Deus o enriqueça com a Sua graça. Isso é interpretação de texto básica, o abster-se está relacionado na frase a casamento, não existe a palavra sexo alí. Interpretando: Se você não tem condições para se casar, não se case, espere que Deus irá te ajudar. ;)




"O Que Sua Mão Direita Possui" (Ma Malakat Yameenek)

Continue tirando o que foi ACRESCENTADO pelos tradutores: E aqueles, entre os quais sua mão direita possui (Ma Malakat Yameenek), que procuram um contrato - então, faça um contrato com eles, se você souber que há Deus dentro deles, e dê-lhes da riqueza que Ele lhe deu. Muitos traduzem o (que sua mão direita possui) para (escravas). Isso é muito ruim pois, a escravidão é contrária as leis de Deus. Os tradutores distorceram esses versículos e fizeram parecer que sexo é permitido entre os cônjuges e entre pessoas livres e seus escravos, hein? (de onde será que o ISIS tirou suas escravas sexuais?)


4:3 Se temerdes ser injustos no trato com os órfãos, podereis desposar duas, três ou quatro das que vos aprouver, entre as mulheres. Mas, se temerdes não poder ser equitativos para com elas, casai, então, com uma só, ou (or those YOUR RIGHT HAND POSSESSES). Isso é o mais adequado, para evitar que cometais injustiças. 



Veja o 4:24 "Also (forbidden are) women already married, except those (captives and slaves) whom your right hands possess (Ma Malakat Yameenek). Thus has Allah ordained for you. All others are lawful, provided you seek (them in marriage) with Mahr (bridal money given by the husband to his wife at the time of marriage) from your property, desiring chastity, not committing illegal sexual intercourse, so with those of whom you have enjoyed sexual relations, give them their Mahr as prescribed; but if after a Mahr is prescribed, you agree mutually (to give more), there is no sin on you. Surely, Allah is Ever AllKnowing, AllWise"

São proibidas as mulheres que já são casadas, exceto, aquelas que sua mão direita possui (Ma Malakat Yameenek), novamente traduzido como escravas, não e não, Deus não aprova a escravidão, muito menos (escravas sexuais).


Corrigindo:


4:24 Também vos está vedado desposar as mulheres casadas, salvo (Ma Malakat Yameenek). Tal é a lei que Deus vos impõe. Porém, fora do mencionado, está-vos permitido procurar, munidos de vossos bens, esposas castas e não licenciosas. Dotai convenientemente aquelas com quem casardes, porque é um dever; contudo, (não sereis recriminados, se fizerdes ou receberdes concessões, fora do que prescreve a lei), porque Deus é Sapiente, Prudentíssimo.



24:31 Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos que (normalmente) aparecem; que cubram o colo com seus véus e não mostrem os seus atrativos, a não ser aos seus esposos, seus pais, seus sogros, seus filhos, seus enteados, seus irmãos, seus sobrinhos, às mulheres suas servas, aos homens que estão comprometidos com elas - minha interpretação* (Ma Malakat Yameenek), ou às crianças que não discernem a nudez das mulheres; que não agitem os seus pés, para que não chamem à atenção sobre seus atrativos ocultos. Ó fiéis, voltai-vos todos, arrependidos, a Deus, a fim de que vos salveis!


33:55 "Não serão recriminadas (se aparecerem a descoberto) perante seus pais, seus filhos, seus irmãos, seus sobrinhos, perante suas mulheres crentes ou (Ma Malakat Yameenek). E temei a Deus, porque Ele é Testemunha de tudo."


70:29 São aqueles que observam a castidade, 30 Exceto para com as esposas, ou (Ma Malakat Yameenek) — nisso não serão reprovados.

Para ficar mais claro separei um post contendo todos os versículos (que eu encontrei) onde essa expressão ocorre. Você vai encontrá-los em "O Que Sua Mão Direita Possui" (Ma Malakat Yameenek) < basta clicar aí


"Virtuoso, puro de relações sexuais ilegais" (conforme definido pela Igreja), do francês antigo: "moralmente puro". Do latim: "limpo, puro, moralmente puro". O sentido de "sexualmente puro" veio à partir do século 15, Talvez por influência da "castidade", embora casto como "virgem" só foi registrado a partir do início do século 14.

Apedrejamento


Dois versículos prescrevem punição para as relações sexuais ilícitas. O primeiro prescreve o seguinte: “Se qualquer uma de suas mulheres for culpada de lascívia, tome o depoimento de quatro testemunhas (confiáveis) dentre os vossos contra ela, e se testemunharem, confine-a em sua casa até que lhe chegue a morte ou que Alá lhes ordene algum (outro) destino” (Alcorão 4. 15). O versículo não usa o termo zina, em vez disso, fahisha (lascívia) é usado, o que a maioria dos comentaristas entende como implicando-se o adultério e a fornicação. No entanto, Yusuf Ali, um dos notáveis tradutores do Corão, em nota afirma que fahisha “refere-se a crime não-natural entre as mulheres, análogo ao crime não-natural entre homens,” (YUSUF ALI, 1997, p. 189). O assunto tratado no próximo verso, que afirma: “nenhuma pena é especificada para o homem, como seria o caso se um homem estivesse envolvido no crime” (Alcorão 4:16). Também foi argumentado que fahisha no Corão, Surata an-Nisa, (4:15) denota um ato sexual em público e prostituição, sexo consensual não privado, seja heterossexual ou não. O verso endossa a punição existente para fahisha – de que apenas as mulheres, ao que parece, poderiam ser acusadas. Elas devem ser confinadas em suas casas para o resto de suas vidas, ou humilhadas por ter de aparecer em público cobertas de esterco animal. O verso, no entanto, não abole essa penalidade, mas a prevê exigindo a prova de quatro testemunhas e, talvez mais importante, promete uma saída para as mulheres. Em todo caso, os juristas concordam que a punição foi substituída pelo Corão, na Surataan-Nur (24. 2), em que se lê: “A mulher e o homem culpados de adultério ou fornicação (al-zaniahwa al-zani) - castigue cada um deles com cem açoites.”


A definição dos crimes de acordo com a punição é em si um desenvolvimento jurídico. A expressão hudud Allah, limites prescritos por Deus, aparece 14 vezes no Corão. Em nenhum lugar é usado no sentido de punição, fixa ou de outra maneira, nem é indicado especificamente quais são esses limites ( KAMALI, 1998, p. 219; 2000, p. 45-65). Como observa Fazlur Rahman, em dois versos (229-230) o termo aparece seis vezes em relação ao divórcio, exigindo-se aos homens reter ou liberar suas esposas bil-ma‘ruf, isto é, de acordo com os “bons costumes”; a cada vez o termo tem um significado ligeiramente diferente, mas nem aqui nem em outra parte é usado no sentido de punição.


O Corão não exige o apedrejamento como punição por adultério, nem fala de qualquer punição por relações sexuais consensuais em âmbito privado. Como Asifa Quraishi com razão argumenta, zina, tal como definido pelos juristas clássicos, deve ser visto como um crime de indecência pública e não como uma conduta sexual privada. Em suas palavras, “(e)nquanto o Corão condena o sexo fora do casamento como um mal, autoriza-se ao sistema jurídico muçulmano processar alguém por cometer esse crime somente quando o ato é praticado de forma tão aberta que quatro pessoas vejam sem invadir a privacidade do casal” ( QURAISHI, 1997, p. 296 ).41




O Judaísmo é a mais antiga das três principais religiões monoteístas (as outras duas são o cristianismo e o islamismo). É neutro quanto ao sexo antes do casamento; é condenado o casamento com adeptos de outras religiões; há condenação do adultério; a prática masturbatória e as variações sexuais são liberadas, exceto o sexo anal, que é proibido; em relação aos contraceptivos, são aconselhados os métodos naturais (tabelinha), não sendo aceitos os artificiais; em relação a disfunções sexuais, deve-se procurar primeiro o rabino, que poderá sugeriruma terapia. (Cherulli, 2007)

Na tradição jurídica islâmica, qualquer contato sexual fora do casamento civil é considerado crime. A principal categoria de tais crimes eles definiram como zina, que seria qualquer ato de relação sexual ilícita entre homem e mulher. A punição para zina é a mesma para homens e mulheres: 100 chibatadas para os/as solteiros/as e morte por apedrejamento para os/as casados/as; no entanto, ocorrências dessas punições são raramente documentadas na história.


Em vários estados e comunidades, leis penais, então obsoletas, foram seletivamente restabelecidas, codificadas e introduzidas no sistema de justiça penal e aplicadas, em diferentes formas e graus, por meio da estrutura do Estado moderno. As mais controversas dessas medidas foram o renascimento das leis de zina e a criação de novos crimes que penalizam a atividade sexual consensual e autorizam a violência contra as mulheres. Ativistas fizeram campanha contra essas novas leis por razões de direitos humanos; campanhas em países tão diversos como Nigéria, Paquistão e Irã revelaram a injustiça e a violência trazidas pela “islamização” dos sistemas de justiça criminal. As questões abordadas nessas campanhas ressoam em muitos outros contextos muçulmanos, onde as interpretações tradicionais e patriarcais de textos sagrados do Islã são invocadas para limitar direitos e liberdades das mulheres. (quase todos os condenados com base nas leis de zina a chicotadas, prisão ou morte por apedrejamento tem sido mulheres)


(É preciso reconhecer que as leis e as práticas religiosas não são fixas, imutáveis e uniformes, mas sim que elas são produtos de circunstâncias sociais e culturais e de relações de poder locais e mais amplas.)




Criminalização da sexualidade: Leis de Zina como violência contra as mulheres em contextos muçulmanos Por Ziba Mir-Hosseini (ela é antropóloga do Direito, cineasta e ativista, especializada em direito islâmico, gênero e desenvolvimento. Ela é Pesquisadora Associada do Centro sobre Oriente Médio e Lei Islâmica da Universidade de Londres e membro fundadora do Musawah Global Movement for Equality and Justice in the Muslim Family)

Religião e Sexualidade


A religião em relação à sexualidade tem sido um instrumento ideológico e político-social, de forma que tem orientado os indivíduos para uma moral, na maioria das vezes, negando sua sexualidade. A maior exceção vem dos orientais que se pautaram pelas orientações religiosas do Taoísmo, Budismo e Confucionismo que têm uma relação no se refere à sexualidade sem a força repressora como as Igrejas cristãs, desta forma a sociedade oriental sempre foi muito mais livre e natural que a ocidental. As religiões e filosofias orientais baseiam-se sempre no equilíbrio e complementaridade entre princípios opostos, simbolizados principalmente pelo "feminino" (yin) e "masculino" (yang). As mulheres têm um inexaurível suprimento de Yin enquanto o homem tem uma limitada quantidade de Yang.


Há mais de 2000 anos apareceram na China, Japão e Índia, filósofos que indicavam que a sexualidade conferia iluminação espiritual. Que o sexo não buscava somente o prazer, mas também a transcendência da mortalidade humana. Os chineses descobriram o equilíbrio através da natureza e aplicaram em todas as áreas da sua vida inclusive na sexualidade. “Desde a 1ª Dinastia chinesa (1750 A.C.) que existia uma expressão para o sexo: ‘Nuvens e Chuva’. Esta metáfora representava os céus e a terra a fazerem amor”.


Fonte: O sexo no mundo oriental


Repressão Sexual e "Família Tradicional"


"O recalcamento — resultado da interiorização da repressão sexual — enfraquece o ‘Eu’ porque a pessoa, tendo que constantemente investir energia para impedir a expressão dos seus desejos sexuais, priva-se de parte de suas potencialidades.


Portanto, conclui Reich, o objetivo da repressão sexual consiste em fabricar indivíduos para se adaptar à sociedade autoritária, se submetendo a ela e temendo a liberdade, apesar de todo o sofrimento e humilhação de que são vítimas."





A família, nessa situação, marcada de ideologia autoritária, mola mestra da sociedade pequeno-burguesa, vai influenciar e servir de parâmetro fundamental na teorização que Reich faz da base repressiva do caráter. Diz Reich no início do cap. IV da Psicologia de Massas do Fascismo: "Uma vez que a sociedade autoritária se reproduz, com o auxílio da família autoritária, nas estruturas individuais das massas, a família tem de ser abordada e defendida pela reação política como a base do Estado da Cultura e da Civilização". No entanto, se observarmos a família sob o ponto de vista da evolução social, ela não pode ser encarada, continua Reich, "como a base do Estado autoritário, mas como uma das mais importantes instituições que lhe servem de apoio". O processo de ideologização portanto, carrega consigo o estigma da família autoritária que vai fundamentar a moral sexual repressora e indicar o caminho que os homens e as mulheres devem seguir na sociedade, principalmente a sociedade burguesa. E, se no caso de aparecer nessa sociedade a mulher liberada das amarras da sexualidade submissa, o colapso da ideologia autoritária estaria prestes a acontecer. Os homens por sua vez, assumem a posição reacionária e conservadora de ter a mulher como objeto de reprodução e não como parceira do prazer. O prazer às mulheres é negado para não comprometer a liberdade do homem e a manutenção da estrutura ideológica. Nesta perspectiva, diz Reich: "o ato sexual por prazer desonra a mulher e mãe; uma prostituta é uma mulher que aceita o prazer e vive para ele".




A família para Reich, como objeto de estudo e análise histórica tem na repressão sexual sua razão de ser. Assim fundamenta a origem da ideologia autoritária, exclusivamente, sem outras finalidades explicativas. Desta maneira, a distinção que ele efetuou na sua pesquisa, foi de uma história da sociedade dividida por dois tipos básicos: "o matriarcado tolerante e o patriarcado autoritário".



O CORPO E O ANTI-DEVIR Por Lourenço Leite


A repressão sexual contribui para o surgimento de neuroses, entre elas em especial a neurose obsessiva, histerias, impotência sexual, frigidez e outros transtornos psíquicos. Na vida de muitos casais é comum detectar traços de repressão sexual especialmente entre as mulheres, o que atrapalha e muito a vivência harmoniosa e frutífera do casal, gerando incompreensões, brigas e até mesmo separações. Uma educação sexual repressiva é fundamentada no autoritarismo e na imposição de regras infundadas e sem sentido que muitas vezes são passadas para os filhos de forma incoerente, pois nem os pais conseguem seguir suas próprias normas referentes à sexualidade. 


A energia sexual, também denominada como libido, está completamente interligada com toda a vida da pessoa, em seus aspectos biológicos, psíquicos e espirituais. Uma vez que se imprime em uma criança ou em um adolescente a ideia de que sua sexualidade é algo proibido, feio ou pecaminoso, oferece-lhe também um dispositivo de dissimulação da verdade, pois a criança se verá obrigada a negar o desenvolvimento natural de sua sexualidade, o interesse pelo sexo oposto e as experiências de prazer. A repressão sexual normalmente acontece quando os pais e educadores não compreendem ou mesmo não conhecem bem a sexualidade. Diante do medo de que os filhos vivam uma sexualidade irresponsável e promíscua preferem impor leis morais baseadas em sua autoridade, contudo sem oferecer fundamentos para uma vivência responsável e harmoniosa. Mal sabem os pais que esta atitude pode gerar problemas ainda piores que os que outrora temiam.

Alguns estudos afirmam que grande parte dos comportamentos sexuais indesejados e anti-sociais dos dias atuais tem uma ligação direta com a repressão sexual. Há também o risco de se considerar a repressão como o único vilão dos problemas sexuais da sociedade pós-moderna, muitos cientistas e movimentos pregam o liberalismo sexual como a solução contra a repressão, incorrem nos mesmos erros provocando males ainda maiores para o desenvolvimento saudável das pessoas.



“Repressão” sexual Por Aleteia


Dominar o espaço mais íntimo da pessoa pressupõe dominá-la por inteiro. Isso significa limitar a fonte de seus desejos e de seu poder de expressão assim como impedir qualquer tipo de auto-afirmação diante da lei e do poder […] A tentação pode ser a de manter um domínio secreto sobre a massa de crentes por meio do controle dessa zona íntima da personalidade. A associação estreita entre a sexualidade e o sentimento de culpa poderia também pretender manter os crentes numa posição de submissão e de debilitamento próprio eu […] Temos, pois, um grave problema eclesiasticamente irresolvido. E também uma questão de poder associado a ele (DOMINGUEZ MORANO, 2003, p. 202).

Considerações Finais

Após ler tantos artigos (muitos não foram expostos aqui) chego a conclusão que as grandes religiões foram e são as molas propulsoras da repressão sexual e da homofobia. Elas encontraram nas grandes massas, que em sua maioria não tem uma boa educação e estão na ignorância, o combustível necessário para perpetuar neuroses e frustrações. 

No artigo Como a Igreja arruinou a vida sexual das Américas com pecado, culpa e preconceito, podemos perceber que a homossexualidade, a transexualidade ... eram muito bem conhecidas pelos povos antigos, e não eram vistos como nenhuma anormalidade. 
Tudo o que era possível trazer para cá, em termos sexuais, já era conhecido entre os nativos: homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, bigamia, poligamia. As posições também iam muito além do “papai-e-mamãe” no escuro e sob lençóis dos colonizadores: masturbação mútua, sexo anal, oral, grupal. Sexualmente falando, eram os indígenas os avançados e os homens brancos, os primitivos. Mas foi só chegar a igreja e pronto: a pretexto de civilizar-nos, destruíram milênios de conhecimento autóctone sobre a sexualidade. [...]
Na América protestante a repressão não foi diferente. Muito igualitária, a sociedade Cherokee dava às mulheres postos semelhantes aos dos homens; elas podiam integrar o conselho da tribo e ser guerreiras. O adultério era permitido a ambos os sexos, sem punição, assim como o divórcio: bastava a mulher colocar os pertences do homem para fora da casa.
Havia ainda os transgêneros, encontrados em mais de 150 tribos norte-americanas. Chamados de Two-Spirit (“dois espíritos”) ou “berdaches”, eram homens que gostavam de estar entre as mulheres, fazer as coisas que elas faziam e vestir-se como elas. Ou o contrário: mulheres que gostavam de se vestir como homens. Os primeiros relatos de colonizadores sobre os Two-Spirit aparecem já no século 16. O preconceito contra eles só vai surgir mais tarde, por influência do homem branco. A partir daí, eles passam a ser rejeitados por suas tribos e são marginalizados.
Mesmo hoje, com tantos avanços, ainda colhemos os frutos dessa repressão, somos mais liberais, mas ainda não entendemos nossa sexualidade, os homens ainda são ensinados a dominarem, e as mulheres a serem dominadas.
Os homens ainda aprendem sobre sexualidade em filmes pornôs, e as mulheres ainda fingem orgasmos. Ainda existe a "mulher para casar" e a "mulher para ficar", e ainda muitas acreditam que "boas moças" terão casamentos felizes e eternos, não e não, você pode se casar virgem e ainda sim ser traída e mal tratada (todo mundo conhece alguma história parecida).

Somos bombardeadas pelas histórias perniciosas das princesas da Disney, que esperam príncipes que irão salvá-las de todo mal. Sentimos vergonhas de nossos corpos (e muitas vezes, como em minha comunidade, temos os corpos e cabelos ocultados, o que é o outro lado da hipersexualização da mulher) pelas construções tão efêmeras do que é ser belo. Não temos maturidade, e estamos sempre indo aos extremos. Não conhecemos nossos corpos e não entendemos nossa sexualidade.

Precisamos entender que, pela perspectiva corânica, esses tabus, preconceitos, repressões e fobias, não fazem parte da vida de um muçulmano, mas, sim, foram adicionados às nossas vidas, às vidas de muitas comunidades muçulmanas (não todas), por muitos que se dizem estudiosos da "religião". Todas nós, muçulmanas ou não, temos direito a contracepção, ao aborto seguro e ao sexo sem medos ou culpas.