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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Califado Fantasia

"O grupo insurgente jihadista ISIS, ou como agora preferem ser chamados, 'Estado Islâmico', aparece bem no caminho para atingir sua meta declarada: a restauração do califado. O conceito que se refere a um estado islâmico, presidido por um líder com autoridade política e religiosa, remonta dos diversos impérios muçulmanos que se sucederam após o Profeta Muhammad. A partir do século VII em diante, o califa era, literalmente, o seu "sucessor".

O problema com este novo califado, que, como um porta-voz do ISIS afirmou no domingo, tem sido estabelecido sob a liderança de Abu Bakr al-Baghdadi, líder militante islâmico desde os primeiros dias da ocupação americana ao Iraque; não tem nenhuma relação com a história, para dizer o mínimo.

O califado abássida, por exemplo, que governou 750-1258, era um império impressionante, dinâmico e diversificado. Centrado em Bagdá, na mesma rua onde o ISIS está ocupando grandes áreas do Iraque, o califado abássida era séculos à frente das cortes retrospectivas de Baghdadi. A sociedade abássida, durante o seu apogeu, prosperou no multiculturalismo, ciência, inovação, aprendizagem e cultura - em nítido contraste com o puritanismo violento do ISIS . O poeta irreverente da corte do lendário califa Harun al-Rashid (cerca de 763-809), Abu Nuwas, não só escreveu odes ao vinho, mas também escreveu versos eróticos gay, que fariam corar um moderno imam.

Centrado na Bayt al-Hikma, a "Casa da Sabedoria" de Bagdá, o califado abássida produziu notáveis avanços nas ciências e matemática. O próprio método científico moderno foi inventado em Bagdá, por Ibn al-Haytham, que tem sido chamado de "o primeiro verdadeiro cientista."

É esta tolerância de pensamento livre, para não mencionar a suposta decadência da corte do califa, que faz com que os radicais islâmicos remontem a uma época anterior a de Muhammad e seus primeiros "sucessores". Mas mesmo estes primeiros califas Rashidun ("bem encaminhados") têm pouca semelhança com a mitologia jihadista. Muhammad, o mais "bem encaminhado" de todos, compôs um documento surpreendentemente secular na Constituição de Medina. Ele estipulou que os muçulmanos, judeus, cristãos e até mesmo pagãos tinham direitos políticos e culturais semelhantes - muito longe das atitude punitivas do ISIS...

Como é que esta falácia ideológica de califado islâmico surgiu?

No final do século 19, os nacionalistas árabes eram grandes admiradores das sociedades ocidentais, sendo assim, pediram para que outros muçulmanos, nas palavras do reformador egípcio Rifa'a al-Tahtawi, "entendessem o que o mundo moderno é." Muitos não só admiravam a Europa e a América, mas também acreditavam nas promessas de apoio à sua independência do Império Otomano.

O primeiro teste de realidade veio quando a Grã-Bretanha e França dividiram o Oriente Médio após a Primeira Guerra Mundial. Desapontados com os velhos poderes, intelectuais árabes ainda tinham esperanças de que os Estados Unidos, que ainda não tinha entrado na política do Oriente Médio a sério, viessem como um libertador.

Mas, após a Segunda Guerra Mundial, a América preencheu o vazio deixado pela França e pela Grã-Bretanha, emulando seus antecessores imperiais. Ele evitou o governo direto e apoiou uma série de autocratas impopulares. Isto resultou em uma desconfiança permanente na retórica democrática ocidental.

Em seguida, houve o fator interno. O fracasso do revolucionário pan-arabismo, de entregar a sua visão utópica de renascimento, unidade e liberdade, levou a uma desilusão com a política secular. Ao mesmo tempo, a corrupção e subserviência ao Ocidente dos conservadores monarcas ricos do petróleo, virou muitos árabes contra o modelo diferencial e tradicional do Islã.

Fora desse fracasso de várias camadas, que muitas vezes incluía a supressão brutal dos dois oposicionistas seculares e islamistas moderados, surgiu um fundamentalismo niilista, que afirmou que a sociedade árabe contemporânea tinha retornado ao pré-islâmico "Jahiliyyah"  ("idade da ignorância"). A única maneira de corrigir isto foi declarar a jihad, não só contra estrangeiros "incrédulos", mas também contra a própria sociedade árabe, a fim de criar um Estado islâmico puro - um que até então apenas existiu na imaginação dos extremistas islâmicos modernos - . Estes islamitas diagnosticaram a fraqueza e subdesenvolvimento da sociedade árabe contemporânea, como decorrente de seu desvio da "pura" moralidade islâmica, como se o comprimento adequado de uma barba e rezar cinco vezes ao dia fosse um substituto para a ciência e educação, ou pudesse contrabalançar as desigualdades globais.

A destruição em massa da infra-estrutura política, social e econômica do Iraque, desencadeada pela invasão liderada pelos americanos, criou um vácuo no poder para estes grupos "takfiri" - primeiro Al Qaeda e, em seguida, o ISIS, ainda mais radical - preencher. Apesar do recente sucesso no campo de batalha deste último, no entanto, há pouco apoio para os jihadistas ou apetite para as suas duras críticas entre as populações locais, um fato refletido pelos 500.000 cidadãos aterrorizados que fugiram de Mosul.

Mesmo o modelo mais moderado defendido pela Irmandade Muçulmana, o sonho de governo teocrático islâmico transnacional, atrai um número cada vez menor de árabes. Só na semana passada, as mulheres marroquinas mostraram desprezo pelo primeiro-ministro conservador, Abdelilah Benkirane, indo para o Parlamento armadas com frigideiras, depois que ele argumentou que as mulheres devem ficar em casa.

Ao invés de um califado, presidido por califas arbitrariamente nomeados, sujeitos a uma interpretação rígida da lei Shariah, milhões de árabes se esforçam simplesmente pela paz, estabilidade, dignidade, prosperidade e democracia. Três anos turbulentos após as revoluções árabes, as pessoas ainda se entretêm com o sonho modesto de um dia ter seu quinhão de "pão, liberdade, e justiça social", como o slogan na Tahrir Square colocou."

Khaled Diab é um jornalista egípcio-belga
Traduzido por Pollyanna Meira


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