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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Fundamentalistas

Em entrevistas mais recentes (por exemplo, http://migre.me/p9G4i), o autor descreve os jovens que procuram o Exército Islâmico, e algumas das suas explicações talvez valham para todos os fundamentalistas, ou seja, para todos os que querem que os outros obedeçam às normas que eles escolheram se dar.
De fato, a paixão é uma só: a de forçar o mundo a agir segundo suas crenças pessoais.
1) O ocidental candidato ao EI é incapaz de seguir a regra da modernidade, pela qual cada um produz sozinho um sentido para sua vida. Para que ela faça sentido, nosso candidato precisa fazer parte de um coletivo ou de uma "ordem do mundo".
Detalhe: para que uma crença consiga garantir que existe uma ordem do mundo, é preciso que o mundo confirme essa crença, mesmo que seja à força. Quer que Cristo seja o sentido do mundo? Não reze, saia numa nova cruzada e imponha Cristo a ferro e fogo.
2) Facilmente, quem precisa procurar um sentido para a sua vida acaba erotizando a morte (o sacrifício, o martírio). Uma morte que tenha sentido é o desafio supremo contra a falta de sentido da vida.
3) Lutar contra quem pensa diferente e matá-lo (ou forçá-lo a obedecer à minha crença) é um jeito de ganhar minha luta interna contra tentações e fraquezas. Por exemplo, impedir a prática de sexualidades divergentes é um jeito (fictício) de controlar minha própria sexualidade divergente.
Além disso, uma causa pretensamente "generosa" me autoriza a cometer atrocidades que, sem isso, eu nunca me permitiria (embora elas me tentem) –estupros, assassinatos etc.
4) O ingresso em uma causa inimiga de nossa cultura (temida pelos adultos e pelo suposto establishment) realiza o sonho adolescente em toda sua contradição: o máximo de transgressão, junto com o máximo de obediência servil e conformidade.
Exatamente como o ingresso numa gangue ou, talvez, numa igreja.
5) Os combatentes estrangeiros do EI gravam vídeos e mostram camaradagem e heroísmo iminente. Encontram, assim, um jeito de serem invejados por (alguns de) seus pares.
Nossa cultura é responsável pela miséria desses candidatos fundamentalistas? Talvez sim: por nossa maneira envergonhada de sermos modernos, como se viver num mundo sem absolutos e com pouco sentido garantido fosse uma falha.
Na verdade, deveria aparecer como nossa maior conquista.
Via: Folha de São Paulo

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