TRADUTOR/TRANSLATE

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Olfa Youssef: A mulher e o sagrado ou o Alcorão sob a ótica da psicanálise.


Existe no mundo árabe hoje uma preocupação em "reler o alcorão" e em “reinterpretá-lo” e assim recusar algumas leituras extremistas. Por detrás destas petições de princípio encontra-se o postulado segundo o qual haveria numerosas leituras possíveis do texto sagrado dos muçulmanos. Esta ideia não é nova, ela existe desde o princípio do islã. Contudo, raros são aqueles que exploraram as consequências à luz dos saberes modernos. Pois bem, está quebrado o tabu: Olfa Youssef é esse nome.

Esta intelectual tunisiana, especialista em linguística e  psicanálise viveu na pele e no quotidiano as consequências das interpretações corânicas sob esta ótica. Hoje empregando as ferramentas da teoria da linguagem, da semiologia e da psicanálise ela trás à luz as estruturas linguísticas, semióticas e inconscientes do alcorão e também daquilo que seus leitores acrescentam a cada leitura. 

O maravilhoso trabalho de Olfa Youssef é digno de nossa admiração e respeito no mínimo por sua originalidade e ousadia. Ela entra com elementos da modernidade na interpretação do texto canônico com uma coragem e brilhantismo raros neste domínio em que,  desde o primórdios do islã, os homens são os detentores e a interpretação do texto santo dominada pela ótica masculina e patriarcal dos ulemás.

Encontramos em Olfa Youssef um sinal da transformação do mundo árabe, diante da modernidade da globalização e das inevitáveis mudanças em todos os segmentos da sociedade. 

E uma transformação em um nível muito profundo, pois o islã não é apenas uma religião, mas uma civilização e um sistema jurídico. A primavera árabe comprova a sede de mudanças e o papel da juventude foi fundamental. Ainda que os efeitos não sejam vistos em plenitude e muitos falem em caos, o movimento que revolucionou o mundo árabe com certeza revolucionou em primeiro lugar as consciências. 

O trabalho de Olfa possui sonoridades das origens do islã. Conta-se que algumas mulheres da primeira comunidade islâmica eram ardentes feministas, como a antiga guerreira Nusaybah. Ela um dia perguntou a Maomé por que razões, no Alcorão, Deus se dirigia sempre aos homens e jamais às mulheres. Conta a lenda que Allah reconheceu a validade de sua questão pois, após a demanda a Revelação falará ao mesmo tempo dos "Crentes homens e crentes mulheres". Esta lenda é considerada um racionalismo apócrifo... Contudo o texto corânico está abundantemente envolvido por personalidades femininas de peso como aquelas derivadas de outros monoteísmos como Eva, Belckis, a Rainha de Sabá, a própria Virgem Maria, passando pelas mulheres islâmicas, que seguiram o profeta em diversas situações como Aicha, Zaynab, Oum Salâma, Çayfa, Maymouna, Khawla, Rayâna entre outras, mulheres de extraordinários feitos na proximidade do profeta Maomé, acolhidas por ele. Como o islã pôde excluir o feminino de forma tão enfática em sua conduta pelos séculos? Sabemos que foi devido a interpretações misóginas. Daí o grande valor de Olfa Youssef que nos explicará mais...

Nosso intuito não é classificar as ações islâmicas referentes à mulher. Sabemos que dentro do cristianismo a mulher foi igualmente vítima de aplicações preconceituosas e misóginas durante mais de dois mil anos... Sabemos também que as mulheres foram as grandes amigas do Cristo e que seus detratores e traidores foram... homens. O primeiro ser a quem foi anunciada a vinda do Menino, foi uma mulher: a Virgem Maria. Também foi uma mulher a primeira a ver o Cristo ressurreto: Maria Madalena, e sabemos também com quanta crueldade o nome dela foi tratado ao longo dos séculos...

Enfim, leitor amado, está semeado o campo.

Olfa Youssef é autora de Le coran au risque de la psychanalise (Albin MIchel), de Démunis de raison et de religion et Confusions d'une musulmane. (Nenhum traduzido para o português...)
Sugerimos o Blog da autora em http://olfayoussef.blogspot.com.br/.

Cláudia Falluh Balduino Ferreira
VIA Blog: Literatura Magrebina Francófona 



Nenhum comentário:

Postar um comentário