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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Praticando o Islã em Shorts Curtos

(Quero aproveitar a matéria para mostrar que nem todas as muçulmanas vestem abayas, hijabs, niqabs ... Muitas têm piercings, tattos (como eu) cabelos coloridos ... Vestem roupas ocidentais, e não encontram nenhum problema nisso. Se você não é uma muçulmana no padrão convencional, mande sua foto, vamos mostrar que no islã também existe diversidade. oh yeah!)

Por Thanaa El-Naggar
Tradução Pollyanna Meira


Esse cenário que estou prestes a descrever, aconteceu comigo mais vezes que posso contar, em mais cidades que possa lembrar, a maioria em cidades ocidentais daqui dos EUA e da Europa.


Ana Lucia Meschke, apesar de gostar do hijab, não têm roupas arabizadas :)
arrasa no make up 

Eu entro em uma loja. Há uma mulher fazendo compra, e eu posso identificar claramente que é muçulmana. Em alguns cenários ela está de pé, atrás da caixa registradora, calculando totais e retornando o troco aos clientes. Ela está usando um lenço na cabeça. Ele está firmemente preso sob seu rosto, onde a cabeça encontra o seu pescoço. Braços cobertos até os pulsos. Tornozelos modestamente escondidos atrás de calças folgadas, ou em um longo vestido solto. Ela é muçulmana. Eu sei. Todos ao seu redor sabem. Encaro-a momentaneamente e penso comigo mesma: Ela não pode dizer se eu estou olhando para ela, porque eu acho que ela é um espetáculo, ou porque eu reconheço algo que compartilhamos.

Sei que isso deve incomodá-la, então desvio o olhar. Eu quero dizer algo, algo que indique que eu não estou olhando fixamente, só porque não estou familiarizada com a forma como ela escolheu se cobrir. Quero demonstrar algo que indique que minha mãe se veste como ela. Que eu cresci em um estado árabe que toca o Golfo Pérsico, onde as pessoas, em sua maioria, se vestem como ela. Que eu também enfrento o leste e recito o Alcorão quando oro.

Devo cumprimentá-la com A'salamu alaikum? pergunto a mim mesma. Então, eu olho para o que eu decidi usar nesse dia. Um short jeans angustiadamente curto, uma camisa oxford de botão e sandálias. Meu cabelo é grande e encaracolado em cima de minha cabeça; ainda secando ao ar depois da chuveirada da manhã. Então, eu lembro dos dois piercings em meu nariz, um abraçando minha narina direita, e outro confortavelmente pendurado no meu septo. Os piercings, tornaram-se uma parte do meu rosto. Eu não os noto, até que eu tenha que assoar o nariz ou até conhecer alguém que não esteja acostumado com piercings.

Decido não dizer nada. Finjo que não temos nada em comum, e que eu não entendo a língua nativa ou a língua em que ela reza. A razão é simples, eu não estou preparada para um olhar crítico, possivelmente para cima e para baixo do meu corpo. Eu não quero ler sua mente enquanto ela hesitantemente responde: Wa'alaikum a'salam.

Eu sou culpada por julgar e projetar meus pensamentos sobre ela, antes mesmo de dar-lhe a oportunidade de receber essas informações e responder a isso. Isso está errado. Minha hesitação nestes cenários, vem de saber que um número considerável de pessoas de minha religião, olham para as pessoas vestidas como eu, e nos descrevem como mulheres que perderam o caminho e se desviaram do caminho do Islã. Eu não cubro minhas coxas, e muito menos os meus tornozelos. (As escolas islâmicas mais dominantes de pensamento consideram os tornozelos de uma mulher parte de sua awrah, ou seja, uma parte íntima de nosso corpo, e revelar isso é, sem dúvida, um pecado.) Nada na minha aparência exterior fala ou representa as crenças que eu carrego. Alguns podem até me conhecer e ainda me rotular como uma muçulmana não praticante - Eu bebo uísque e fumo maconha regularmente.


Asma Gull Hasan, diz que o "hijab" não é prescrito pelo Alcorão

No entanto, eu sou uma muçulmana praticante. Eu oro (às vezes), jejuo, recito a súplica de viagens antes de ligar o motor do meu carro, pago zakat, e o mais importante, eu me sinto muito muçulmana. Há muitos como eu. Nós não acreditamos em uma prática monolítica do Islã. Nós amamos o Islã, e por amarmos tanto, recusamos a reduzi-lo a uma forma inflexível e fossilizada de vida. Contudo, ainda não nos encaixamos em lugar algum. Estamos mais confortáveis passando por não-muçulmanos, se isso nos salva de um ou mais dos seguintes avisos não solicitados, sobre o tipo de punição que nos espera no inferno, conselhos indesejáveis de um desconhecido que começa com "Eu sou como o seu [inserir relativo] ", ou em uma aula improvisada, saída de um livro de textos Wahhabi que eu já sabia que era um disparate aos 13 anos.

Estudos islâmicos foram parte da minha educação formal até me formar no colegial nos Estados Unidos. Os livros utilizados foram da Arábia Saudita, que é o maior seguidor da seita Wahhabi do Islã. A primeira vez que eu percebi que estava tudo bem em verbalizar como sem sentido estes livros são, foi quando eu estava assistindo a um filme com minha mãe, sobre uma família que perdeu um de seus filhos devido a uma doença terminal. Eu devia ter 6 ou 7 anos de idade. Minha mãe disse algo no sentido de, "Eu sei que Deus tem um lugar especial no céu para as mães que perdem seus filhos em uma idade jovem." Eu olhei para a minha mãe e perguntei: Mesmo não sendo muçulmanas?, sem quebrar o contato visual com o aparelho de TV, ela respondeu: "Mesmo não sendo muçulmanas."


O que o Reza Aslan está fazendo aqui?
Pula!

Isso era toda a permissão que eu precisava para acreditar em um Deus mais compassivo do que o falado nestes livros didáticos. Meus pais são muito religiosos. Eles não sabem que eu fumo ou bebo. Eu honestamente não tenho certeza de como eles reagiriam se soubessem, mas eu não estou exatamente pronta para descobrir. Eles encorajam o véu, a mim e a minha irmã, mas não o forçam. Como todos os pais eles não querem ver a gente vestindo nada muito revelador, que chame a atenção ou agarrando. Eles não aprovariam meus shorts.

Quando tornou bastante evidente, que não estávamos sempre rezando cinco vezes ao dia, na maioria das vezes eles ficaram quietos e, ocasionalmente, falavam sobre os benefícios da oração. Minha mãe adorava ler romances de escritores americanos. Ela adorava filmes. Ela amava  música. Ela tentou duramente memorizar o Alcorão, mas penso que ela começou tarde demais. Cumprimentavam nossos amigos do sexo masculino, e não olhavam para nós com desconfiança quando saiamos de casa com eles. Meus pais acreditavam que nós iriamos seguir seus passos, mas confiaram em nós, e em nossas próprias escolhas.

Eu estou firme na minha crença de que a investigação e o caminho errante são as razões. Eu sei que eu sou muçulmana. Aprender sobre o budismo me aproximou do Islã porque ele me ensinou o que significa rendição, uma lição que nenhum dos meus professores de estudos islâmicos foi capaz de ensinar, mesmo que isso seja, literalmente, o significado do Islã. Meus professores de estudos islâmicos me ensinaram a como ser obcecado sobre o mundano - sobre todas as coisas que estou fazendo incorretamente e que, portanto, minhas orações não seriam aceitas. Eles me ensinaram a culpa. Ensinaram-me o medo. Eles me ensinaram que ser um bom muçulmano é muito difícil.

Eu nunca rejeitei o Islã, eu só tive que quebrar a rotina do ritual das orações fora da culpa. Eu queria ver se poderia ser compelida a voltar para o meu tapete de oração. Isso aconteceu. Voltei quando eu senti que a minha vida estava vazia sem a oração. Orei por gratidão. Eu rezei e Ele me deu consolou. Ablução tornou-se mais que espirrar água sobre várias partes do meu corpo, e senti como se fosse mais que uma limpeza diária. Um batismo. Eu parei com a obsessão sobre as pequenas coisas, e meu novo mantra foi "Al-'amal bil Niyat", que significa: ações são dependentes de suas intenções. Meu outro mantra é "Al yusr deen", que se traduz em: religião é a facilidade.



shafiqah othman, não gosta do "hijab", cabelos curtos, 
super produção :)

Explorar por mim mesma me deu as ferramentas que eu precisava para olhar criticamente para a hipocrisia dos ulama'a  (elite / investigadores / clérigos islâmicos). Eu percebi que eu não tenho que praticar a minha religião a partir do ponto de vista de um grupo, em grande parte, de pessoas misóginas. Dois anos atrás eu renunciei a muitos hadiths (tradições proféticas e provérbios), fiqh (jurisprudência islâmica) e tafseer (interpretação), porque estas três coisas, as quais desempenham um papel enorme em como o Islã é praticado hoje, são filtradas através da perspectiva de muçulmanos nascidos em um extremo patriarcalismo normalizado.

Eu não renunciei a todos os hadiths. Eu mantive os que, indiscutivelmente, me fizeram uma pessoa melhor, por me ensinar lições de moral, bondade e paciência. Os dois mantras que eu mencionei acima foram de fato adotados através dos hadiths. O mantra: "A religião é a facilidade" veio através de um hadith relatado por Abu Hurayra, (parenteses apenas para dizer que o "Abu Hurayra", na coleção de hadiths, é o que tem mais contos contraditórios) um dos companheiros do Profeta e o mantra, "ações são dependentes de suas intenções" através de um hadith relatado por Umar ibn al-Khattab, um dos sucessores do Profeta.

Eu mencionei antes que há muitos como eu lá fora, forasteiros, passando como não-muçulmanos, nas proximidades de outros muçulmanos. Quando somos confrontados, a nossa posição sobre a religião é jogada fora, como uma fase rebelde ou como um desejo de se encaixar com a sociedade não-muçulmana dominante em que vivemos. Apesar de não ser a verdade, de modo geral, não estamos atormentados por esta existência. Vivemos uma vida muito saudável, dinâmica e diversificada. Nós estabelecemos ligações e terreno comum com muitos grupos diferentes de pessoas, e não  nos sentimos como párias. Eu aceitei que, mesmo que  uma mudança cultural drástica aconteça, vamos continuar a levar uma vida dupla ou múltipla.

Eu tenho um novo mantra agora, uma curta surata intitulada Al-Kafirun (os incrédulos). Para mim, descrentes, geralmente significam aqueles que não acreditam em Deus e no profeta, também assume a forma daqueles que não acreditam que eu também sou uma muçulmana. A última aya atesta, "Lakum deenakum wa liya deen", que significa: para você a sua religião, e para mim a minha religião. Uma frase simples, que detém o poder de interconexão apesar de nossas diferenças. Um verso que pode me capacitar a sorrir, e cumprimentar a mulher com o lenço na cabeça, sem medo de seu julgamento.


5 comentários:


  1. Diz Allah, Louvado e Glorificado Sejas, no Sagrado Alcorão: “Dize às crentes que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos que (normalmente) aparecem; que deixem seus véus (khumur) caírem sobre si para cobrirem seus decotes (colo) e não mostrem os seus atrativos, a não ser aos seus esposos, seus pais, seus sogros, seus filhos, seus enteados, seus irmãos, seus sobrinhos, às mulheres suas servas, seus criados isentos das necessidades sexuais, ou às crianças que não discernem a nudez das mulheres; que não batam seus pés no chão, para que não chamem à atenção sobre seus atrativos ocultos. Ó fiéis, voltai-vos todos, arrependidos, a Deus, a fim de que vos salveis!" (An Nur: 31). E ainda: “Ó Profeta, dize a tuas esposas, tuas filhas e às mulheres dos crentes que quando saírem se cubram com as suas mantas; isso é mais conveniente, para que se distingam das demais (sejam reconhecidas como crentes) e não sejam molestadas; sabei que Allah é Indulgente, Misericordiosíssimo." (Al Ahzab: 59).

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    1. atrativos ocultos = nudez, não o corpo inteiro incluindo os cabelos

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  2. Diz Allah no Alcorão: “Ó crentes, a bebida inebriante, os jogos de azar, a dedicação às pedras e a adivinhação com setas de rabdomancia, são manobras abomináveis de Satanás. Evitai-os, pois, para que prospereis. Satanás só ambiciona infundir-vos a inimizade e a rancor mediante a bebida inebriante e o jogo de azar, bem como apartar-vos da recordação de Deus e da oração. Não desistireis diante disso?” (Alcorão Sagrado 5: 90 e 91).

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    1. Ela, em momento algum, disse que estava certa, nem nós, ela apenas conta o que é sua vida, desabafa seus erros ... todos nós cometemos erros, mas nunca falamos abertamente ... às vezes mulheres em abaya e niqab cometem erros piores.

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    2. A fia que usa abaya, niqab, véu... pode fazer as merdas mais fedorentas, mas se usa véu, niqab, abaya e etc etc... é considerada santa! ¬¬

      Isso me cansa demais!

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