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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Meritocracia e feminismo por Daniela Lima

(1) Meritocracia é a falácia liberal que ignora as desigualdades materiais e simbólicas, criando um falso poder e autonomia individuais. Ignora que não existe como romper esquemas estruturais de opressão individualmente. Serve aos interesses das classes dominantes;
(2) A intenção disso é construir uma fantasia de que o esforço individual (mesmo isolado da luta política) pode modificar a realidade material. A intenção é ignorar que é preciso ter condições sociais, políticas e subjetivas para romper com esquemas de dominação e exploração. A falácia da meritocracia é a garantia ideológica do ciclo de exploração;
(3) Este debate é perfeitamente compreensível, quando falamos da classe trabalhadora. Afinal, escolher entre ser explorado e morrer de fome não é uma escolha legítima. E ninguém acredita que basta se “esforçar” muito, trabalhar 12, 16 ou 18h para “enriquecer”. Aliás, esta lógica só garante mais exploração;
(4) A meritocracia também é aplicada à condições das mulheres: bastaria um esforço individual para romper ciclos de violência, por exemplo. Como se essas mulheres tivessem poder estrutural para individualmente mudar um esquema de opressão do qual elas não são agentes;
(5) O direito à voz é uma luta importante para que esses temas sejam debatidos por mulheres de diferentes perspectivas sociais. Simone de Beauvoir nos lembra de como perspectivas sociais privilegiadas podem garantir uma falsa sensação de igualdade entre homens e mulheres: "tive a sorte de pertencer a uma família burguesa, que, além de financiar meus estudos nas melhores escolas, também permitiu que eu brincasse com as idéias. Por causa disso, consegui entrar no mundo dos homens sem muita dificuldade. (...) Portanto, tornou-se muito fácil para mim esquecer que uma secretária nunca poderia gozar destes mesmos privilégios";
(6) Catharine MacKinon nos lembra que mulheres são “vistas” e não “ouvidas” no patriarcado. São julgadas pela aparência e constrangidas no seu direito à fala. Seja de forma material ou por um machismo difuso que torna ambientes políticos hostis às mulheres;
(8) Conseguir derrubar as barreiras materiais que restringem as escolhas e os desejos das mulheres e as simbólicas que criam estereótipos de gênero que invisibilizam as barreiras materiais é uma tarefa coletiva, que pode começar numa conversa entre mulheres. Não é uma tarefa individual;
(9) Termino este texto com dois exemplos de como a autonomia e, consequentemente, a cidadania das mulheres é limitada: (i) uma mulher vai à delegacia tentar registrar uma queixa de violência doméstica e é constrangida pelos policiais. Por exemplo, ao ouvir: “você provocou” e “isso não vai dar em nada”. (ii) uma mulher que resolve construir uma carreira que lhe é negada de saída por ser menos ouvida que os homens e por ter uma condição social menos privilegiada. E é constantemente atacada, embarreirada e estigmatizada: “é maluca”. O apoio de outras mulheres nas duas situações é o que garantiria um "escudo" contra essas violências que nos adoecem diariamente, é por isso que acredito no feminismo.


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