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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Por que as Mulheres Muçulmanas Precisam REinterpretar o Alcorão

Do Original: Why Muslim Women Must Reinterpret the Qur'an, por Nimat H. Barazangi, Universidade Cornell, 19 de julho de 2010 
Tradução: Pollyanna Meira

O Profeta, como um agente de mudança, estava disposto a assumir riscos desafiando o conhecimento do senso comum de seu tempo. No entanto, a maioria dos muçulmanos de hoje não estão dispostos a abandonar as antigas representações centenárias do islã, que são enganosas e injustas, e substituí-las pelo igualitarismo do islã, como descrita em sua única fonte divina, o Alcorão.

Lembremo-nos que o Alcorão foi a única fonte escrita por quase cem anos (Por quase 200 para ser mais exata. Como eles rezavam e praticavam o islã durante esse período sem as tradições do Profeta? Lembrando que os boatos foram recolhidos depois de muito "estudo/investigação" e que a maioria foi excluído como sendo falsificação, e mesmo hoje, muitos são considerados fracos. Pense sobre isso) após a morte do profeta Muhammad, antes de suas biografias e tradições serem recolhidas. Essencialmente, como muitas podem ser, algumas destas tradições que dizem respeito às mulheres foram abusadas por intérpretes masculinos, tais como a questão do vestuário e da reclusão. Usando um Hadith, para enfatizar a reclusão extrema das mulheres por trás de uma cobertura para a cabeça, erroneamente chamado de "Hijab," os muçulmanos estão ignorando o ensinamento básico do Alcorão sobre a modéstia que não exige  cobrir os cabelos. A cobertura para a cabeça era praticada antes do islã, e continuou a ser praticada pelos muçulmanos por razões culturais ou ambientais. Especificamente, o versículo 31 do capítulo 24, relativo ao "khimar", foi incorretamente traduzido como "véu", mas o versículo fala sobre cobrir os seios das mulheres e se destina a proteger a linhagem e a herança.

"Se o cabelo fosse considerado uma parte privada da mulher, o Alcorão teria claramente especificado isso em 24:31, quando as mulheres foram instruídas a cobrir seus seios", disse o grupo SIS

Além disso, a intenção de interpretar o Alcorão não é apenas para mudar a estrutura social, mas, principalmente, destinado à mudança de atitudes e percepções, cujo processo demora muito tempo. O processo de interpretação do Alcorão não é um "movimento feminista islâmico" porque o feminismo é um movimento destinado a recuperar os direitos das mulheres na sociedade, principalmente, pesquisando a construção social de gênero como unidade de análise. (não concordo, mas..) Islã, por outro lado, é uma visão de mundo que propaga um único par, o par humano ("Foi Deus quem criou você a partir de uma única alma, e fez seu companheiro de natureza semelhante, a fim de que possa habitar com ela [no amor] "Alcorão, 7: 189), com igualdade de direitos e responsabilidades - espiritualmente, intelectualmente e socialmente (Alcorão 96: 15-19), na tutela e liderança: "E cada alma comparecerá, acompanhada de um anjo, como guia, e outro, como testemunha."(Alcorão, 50: 21) A unidade de análise para a interpretação do Alcorão é a taqwa, ou seja, a construção da capacidade de cada indivíduo para equilibrar todas essas funções dentro das diretrizes do Alcorão, a única fonte divina do islã.

Chegou o momento das mulheres muçulmanas se moverem da apatia à luta aberta contra a injustiça. As condições para as mais de 700 milhões de mulheres muçulmanas ainda são patéticas. (segregação de homens e mulheres, exclusão das mulheres em nome da simplicidade, por vezes, impedindo-as de acessar as instituições de ensino, desestimulando e / ou impedindo as mulheres da oração em congregação e tomada de decisão comum, e acima de tudo, estão negando a mulher a identificação direta com o Alcorão como uma pessoa autônoma). Estas condições requerem mudanças na percepção, atitudes e terreno. Lemos no Alcorão: "Deus não vai mudar a condição de um povo até que eles mudem o que há em si mesmos" 13:11.

Neste breve ensaio, eu ofereço sugestões sobre como as interpretações das mulheres do Alcorão podem alterar a compreensão sobre gênero e transformar as comunidades e sociedades majoritárias muçulmanas de dentro da cosmovisão islâmica, ao examinar o problema central dentro da globalização do movimento democrático, isto é, a ausência das mulheres muçulmanas na formação e desenvolvimento do pensamento islâmico.

Os papéis das mulheres na estrutura das sociedades muçulmanas, têm sido, quase sempre, vistos como secundários ou complementares, infelizmente, poucas muçulmanas reconhecem este ponto de vista como parte do problema. Para contestar e transformar estes pontos de vista, as mulheres devem voltar a tomar o seu papel principal e reinterpretar a fonte primária do islã, o Alcorão. Ao fazê-lo, elas vão implementar um aspecto fundamental do contrato de justiça social entre os muçulmanos e o islã. Com efeito, este deve ser o primeiro passo, essencial para realizar os direitos humanos abrangentes por si mesmos, bem como se faz muito necessário desafiar à autoridade indevida tomada por homens muçulmanos durante cerca de 14 séculos.

Nem teorias sociológicas, nem a ciência ou análises políticas coletivas poderiam explicar completamente a atual crise, e compreender o problema central que as mulheres muçulmanas enfrentam, ou seja, a sua ausência na formação e no desenvolvimento do pensamento islâmico. As mulheres muçulmanas podem recitar o Alcorão muitas vezes diariamente, mas elas estão sempre ausentes para extrair significados e produzir, a partir deles, uma interpretação igualitária do Alcorão. Esta interpretação igualitária deve restaurar a autoridade moral da interpretação da religião para cada individual muçulmano, usando dois princípios corânicos básicos: observar a ordem natural do mundo e desenvolver planos de ação por meio da bem educada razão e consulta mútua.

Em minha opinião, o profeta Muhmmad ficaria espantado com a percepção e prática do Islã dos muçulmanos atuais. A maioria dos muçulmanos acreditam que imitando as relatadas imagens e ações do Profeta do islã, estão dominando os seus deveres religiosos. Os muçulmanos têm vindo a codificar essas relatadas ações erroneamente, visualizando-as como tão sagradas quanto o Alcorão, a ponto de perder a mensagem básica que o Profeta carregou durante 22 anos, entre 610 e 632 AD.

É justa, portanto, a alegação de que a verdadeira mensagem do islã a respeito das mulheres, raramente tem sido praticada pelos passados 14 séculos, porque muitas das representações do islã são baseadas nas relatadas  tradições (hadiths), sem serem corroboradas pelo Alcorão. Só através da produção de uma nova interpretação do Alcorão, é que as mulheres muçulmanas podem se emancipar e ajudar a transformar as suas comunidades e as sociedades de maioria muçulmana. Isto é, nunca haverá um movimento de reforma nas sociedades muçulmanas como o que aconteceu na Europa, porque a estrutura das sociedades muçulmanas e as suas aspirações são diferentes: A estrutura social é construída sobre a colaboração do modelo social da família (não no núcleo do baseado modelo econômico), enquanto as aspirações estão sobretudo relacionadas com a história passada e tradicional autoridade moral (não na moral nacionalista ou étnica).

Como a interpretação igualitária das mulheres do Alcorão ajudaria? Minha resposta é que ela só vai ser capaz de ajudar a longo prazo. Primeiro, a discussão atual das mulheres muçulmanas sobre gênero e outras questões não pode ser considerado um movimento social, nem um movimento "feminista islâmico". Não é um movimento social, porque ele ainda está em sua infância, limitado a alguns estudiosos-ativistas que estão espalhados geograficamente, linguisticamente ou desarticulados por desacordos étnicos e sectários. (Quero abrir outros parênteses para dizer que não concordo, não concordo porque mesmo ainda na infância, não é um movimento novo, por mais que muitas/os não conhecem o feminismo islâmico não quer dizer que não faça parte do islã ou que não esteja interligado a ele. Muitas não querem fazer a conexão porque o movimento é muito mal visto/incompreendido, mas a luta delas é pelo feminismo, igualdade entre homens e mulheres, querendo nomeá-lo assim ou não)

Em segundo lugar, além de construir a capacidade individual, nós também precisamos ver o islã como um processo de três fases distintas de:

(a) Desconstruir a ideia habitual da aceitação e transposição dos costumes sociais de um local para outro, ou seja, questionarmos a tomada pré concebida das interpretações que são baseadas em certos costumes e práticas locais

(b)Fazer uma conexão entre a mensagem do islã e a interpretação humana da sua natureza (identificação com a mensagem, ou seja, auto-reflexão e compreensão mais profunda dos significados da mensagem do tawhid, a Unidade de Deus) e

(c) Reavaliar a mensagem de "não há outro deus além de Deus", com base nas necessidades de cada região, enquanto preservando os princípios da mensagem. 

Estudiosos muçulmanos contemporâneos e organizações, não estão atendendo a qualquer um destes processos. Por isso, a luta será difícil, longa e incerta. No entanto, as mulheres muçulmanas precisam dela.

Nimat Hafez Barazangi, Bacharel em filosofia e sociologia pela Universidade de Damasco, mestrado em psicologia educacional e educação infantil pela Universidade de Columbia, e PhD em currículo e instrução árabe e estudos islâmicos pela Universidade de Cornell. Pesquisadora do Programa de Estudos sobre Feminismo, Sexualidade e Gênero da Universidade de Cornell.



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