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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Promiscuidades

Eu cresci ouvindo (como a maioria das garotas também) que os homens sentem mais desejo que as mulheres, que eles são animais incontroláveis e bla bla bla ... e já como muçulmana ouvi muitas vezes outros muçulmanos dizendo que as mulheres são responsáveis por controlar a líbido do homem, devem se cobrir, não devem passar perfume, etc para não despertarem as feras incontroláveis :? bem, sempre achei estranho, mas lendo o livro de Naomi Wolf, "Promiscuidades", descobri que as mulheres foram consideradas as incontroláveis em maior parte da história de nosso glorioso passado, heim? Vejam trechos IMPORTANTÍSSIMOS desse livro.

O que dizer do momento das orações? abaixe tudo! hora de colocar os homens na parte de trás!



Breve história da libertina

Houve muitas formas de encarar a sexualidade feminina "livre". É óbvio que não existem dados sobre o relacionamento entre homens e mulheres antes do início dos registros históricos. Alguns teóricos, como Riane Eisler em O cálice e a espada e Marija Ginbutas em The Language of the Goddess, são da opinião de que nas civilizações mais remotas, como a minóica, a sexualidade das mulheres pode ter sido considerada uma magia sagrada, muito embora, em decorrência da natureza vaga das provas, o debate ainda esteja aberto. Elas situam o reinado da grande mãe, com sua sexualidade divina, a partir do início do Período Paleolítico (20.000 a.C.) até a Idade do Bronze (por volta de 3.000 a.C. Também alegam que o noroeste da Índia, no Egito e na Mesopotâmia agrária, existia um panteão de deusas poderosas cuja sexualidade era sagrada.

Na Suméria e na Babilônia, a liberdade sexual da mulher fazia parte da religião. Houve uma época em que os templos ficavam a cargo das prostitutas sagradas - jovens das famílias mais aristocráticas -

O Épico de Gilgamesh da Babilônia, que data de 2.000 a.C., conta a história de um homem selvagem, Enkidu, que o herói Gilgamesh precisa domar. Gilgamesh envia "uma prostituta do templo para conquistá-lo como seu poder superior". Shanat, a prostituta, "mostrou-lhe os seios, mostrou-lhe o corpo, ... mostrou as coisas que uma mulher sabe fazer". Durante sete dias, o homem selvagem, "assombrado, deitou com ela com prazer", até ficar fraco demais para caçar. A própria prostituta narra essa história sexual.

Heródoto comentou a respeito da sociedade da Babilônia que: "Toda mulher nascida no país ... deve uma vez na vida ir sentar-se no templo e ali se entregar a um desconhecido." Ela, assim, cumpria seu dever para com o céu e a deusa, que acolhia a oferenda da sexualidade feminina. (Essa prática era tão difundida entre as jovens da Babilônia que um conselho típico de um pai para seu filho era no sentido que o rapaz evitasse tomar uma prostituta sagrada como esposa, já que "seus maridos eram inúmeros").

Em Roma, em 186 a.C., de acordo com o historiador Lívio, o comportamento desregrado das mulheres fez estremecer os escalões mais altos da sociedade. As mulheres de Roma - em especial as senhoras de alta estirpe, que não tinham lazer, viviam entediadas e, como suas colegas gregas, eram excluídas de grande parte da vida pública. 


No início do cristianismo, a igreja se baseou no fortalecimento do controle sobre as mulheres, No período de Justiniano, a esposa desleal era considerada criminosa enquanto seu amante era apenas um cúmplice. Os primeiros cristãos aprendiam que uma esposa infiel deve ser castigada com o divórcio, mas o mesmo não se aplicava a um marido traidor. No início da Idade Média, já estava bem estabelecido na Europa Ocidental que as mulheres eram mais lascivas do que os homens. O acréscimo cristão a essa opinião antiga era que, portanto, as mulheres eram mais culpadas. O termo latino para paixão - usado mais tarde para designar um impulso erótico irracional e possessivo - era "libido", e sempre se considerou que esse impulso derivasse da mulher e estivesse a ela associado.

"As mulheres", escreve o historiador Michel Rouche, "Culpadas com a fonte da loucura destrutiva do amor {livido}. Aos olhos da igreja era necessária a proibição mais severa para as mulheres, "para punir um excesso de desejo {libido} maior nas mulheres que nos homens".


[...]



O que nenhuma de nós sabia - e que para mim foi uma surpresa mesmo quando já adulta - era que a história da sexualidade feminina no Ocidente não é somente muito mais complexa; ela aponta para conclusões muito diferentes daquelas às quais nossa cultura sexual nos quer fazer chegar. Nós não sabíamos que as mulheres haviam sido consideradas mais carnais do que os homens durante a maior parte da história judaico-cristã registrada; que a crença de que as mulheres desejam o sexo menos do que os homens tinha pouco mais de dois séculos de idade; ou que, por sinal, o clitóris havia sido descoberto repetidas vezes ao longo dos séculos. Nós não sabíamos como era sério o problema que estava ocorrendo dentro dos nossos corpos em relação ao mundo à nossa volta; nem era reconhecido como seria rígida a camisa-de-força cultural dentro da qual passaríamos os anos seguintes tentando ajeitar nossos corpos recalcitrantes. 

Nós, porém, nos sentíamos enlouquecidas do mesmo jeito. Apesar da afirmação do Relatório Kinsey de que "no início da adolescência não ocorre nenhuma exacerbação da sensibilidade sexual na mulher que acompanhe a impressionante ascensão no nível dos seus estrogênios. É o homem que de repente se torna sexualmente ativo na adolescência", essa conclusão teria sido uma grande novidade para nós. Nós todas nos sentíamos loucas. A ativação da hipófise - com o estrogênio percorrendo nosso corpo, estimulado pelo despertar da hipófise, engordando nossos quadris, curvando nossa cintura, fazendo com que nos amuássemos, déssemos risinhos e tivéssemos acessos de fúria, além de nos provocar problemas de pele - fazia parte do mesmo processo que nos estava transformando, com sua magia, em guardiãs de uma sexualidade projetada pela natureza para ser no mínimo tão forte quanto a dos rapazes. O impulso sexual deles era considerado normal; mas o nosso, se fosse semelhante ao deles, era uma aberração. Nós não sabíamos que grande balela cultural essa premissa representava. 

"A ideia de que a sexualidade feminina é menos intensa do que a masculina remonta ao final do século xviii. Com a ascensão da Revolução Industrial, a Europa e os Estados Unidos articularam uma nova visão: as mulheres deixariam de ser o sexo mais animalesco, para se tornarem o mais angelical; e seus desejos não seriam mais voltados para a luxúria, mas para o doce afeto e a domesticidade. Cada vez mais, elas eram vistas como tão diferentes dos homens, em termos sexuais, a ponto de se tornarem o oposto do homem."

Há muitas teorias quanto ao motivo que provocou essa mudança. Uma gira em torno da agitação política de uma época democratizante: com o triunfo do secularismo e a emergente importância do darwinismo do século xix, a ciência precisava ser usada para defender uma hierarquia baseada no sexo, já que apelos a Deus e à tradição estavam cada vez mais sendo contestados nessa função. 

Outros historiadores recorrem à economia: Linda Gordon, em Woman's Body, Woman's Right, defende a tese de que a sexualidade passou a ser uma ameça ao desenvolvimento da "estrutura do caráter capitalista", que exigia que as pessoas almejassem o futuro e deixassem a satisfação para depois. A industrialização surtiu o efeito não de amenizar as "restrições sobre as mulheres e sobre a expressão sexual humana" mas o de secularizá-la; e então aplicá-las com rigor muito maior às mulheres do que aos homens. 

A nova ideologia alegava que, biologicamente, as mulheres eram muito mais bem equipadas do que os homens para controlar o ímpeto impulsivo e carnal do desejo. No século xix, o impulso sexual passou a ser atribuído ao universo masculino, e as teorias começaram a negar que ele sequer existisse biologicamente nas mulheres. 

Henry Havelock Ellis sustentava que os orgasmos dos homens e das mulheres eram espantosamente semelhantes, mas que as mulheres apresentavam a tendência natural, e se dada a oportunidade, podem tê-los em maior número, e que orgasmos múltiplos costumam ser possíveis nas mulheres.


Na mitologia grega, perguntaram ao vidente Tirésias, que havia experimentado a vida tanto como homem quanto como mulher, quem tinha maior prazer na cama, os homens ou as mulheres. As mulheres, respondeu ele. A fisiologia pode corroborar sua opinião. A Dra. Mary Jane Sherfey diz que a rede de vasos sanguíneos que cria o enorme potencial para a sensibilidade nas mulheres vai ficando mais complexa após cada parto, o que sugere - em oposição à visão da cultura contemporânea, que as mulheres perdem a sexualidade com a maternidade e com o tempo - que as mães, e em especial as mães mais velhas, são as verdadeiras deusas sexuais. (As mais velhas não ficam atrás) No homem, escreve ela, ocorrem três ou quatro contrações principais, algumas mais fracas, localizadas na área genital, e pronto, já o padrão feminino é diferente, pois as mulheres sentem de cinco a oito contrações fortes seguidas por nove a quinze mais fracas ... e se quiserem podem ter um clímax após o outro. 


"O ciúme e a tirania dos homens contribuíram para reprimir a amorosidade nas mulheres, por empurrarem constantemente as mulheres de forte sexualidade, dos caminhos da vida para a infâmia, a esterilidade e a morte." Dora Forster


"Sensibilidade sexual é maior e mais duradoura na mulher do que no homem." Freud


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