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domingo, 20 de março de 2016

~O Despertar Da Mulher Muçulmana~

Do original: How the Ulema are Perpetuating Male Hegemony in the Name of Islam (Como os Ulemas Estão Perpetuando a Hegemonia Masculina em Nome do Islã)

Por: Zakia Soman & Noorjehan Safia Niaz
Tradução: Pollyanna Meira

Em nosso entendimento, os valores de bondade, compaixão e justiça são os valores fundamentais consagrados no Alcorão. Claramente, a hegemonia não é um valor islâmico, e as experiências a que fomos submetidas no decurso do nosso trabalho nos últimos dez anos dão origem a algumas questões fundamentais.  

Por que tantos muçulmanos, especialmente os homens, têm um pensamento tão hegemônico? Por que a maioria deles pensa que a leitura, compreensão e interpretação do Alcorão é uma prerrogativa exclusiva do sexo masculino? 
Será que eles pensam que Deus criou homens e mulheres como desiguais? Este ponto de vista, de um Deus injusto, não é aceitável para nós, e é aí que reside o cerne da existência do Bharatiya Muslim Mahila Andolan’s (BMMA).


Zakia Soman

Globalmente, eminentes estudiosxs, como a falecida professora Fátima Mernissi, a Dra. Amina Wadud, Dr. Khalid Masood, Dra. Ziba Mir Hosseini e vários outros, têm dedicado suas vidas à leitura e interpretação do Alcorão, para destacar que Deus é justo e correto. Muitos livros foram escritos sobre o quadro do tawhidic acerca de Deus como união, força e harmonização. Mas a verdade é que esses trabalhos acadêmicos, que trazem a essência do islã como uma religião de paz e de justiça, permanecem despercebidos e não são conhecidos pela grande massa de pessoas nas sociedades muçulmanas.

Infelizmente, o processo do pensamento dominante, que controla as sociedades muçulmanas, permanece patriarcal. As tradições e práticas aplicadas, são muitas vezes uma violação direta ao espírito corânico da justiça. A hegemonia estranguladoramente patriarcal na Índia e no Sul da Ásia tem se agravado pela chegada das ideologias Salafi-Wahhabi, que agora tornaram-se as correntes principais nas sociedades muçulmanas. Essa ideologia levou à continuação do reforço da hegemonia da mentalidade patriarcal em nossa comunidade. Práticas como triplo talaq e halala são manifestações dessa tendência. Mas o cerne deste pensamento é uma mentalidade patriarcal de superioridade e dominação masculina.

Noorjehan Safia Niaz

Referimo-nos ao dominante senso comum que prevalece na comunidade muçulmana indiana, que acredita que homens são superiores às mulheres. O islã deu direitos iguais às mulheres há mais de 1400 anos; mas isso está inserido na realidade? Enquanto o senso comum dominante, sobre a suposta superioridade masculina, ditar as mentalidades e comportamentos de muçulmanos, esses direitos permanecerão no papel.

Naquilo que foi um golpe de mestre, as forças patriarcais conseguiram atribuir essa subjugação e injustiça ao islã, através de interpretações incorretas, distorções e mentiras. Eles inventaram ficção, meias-verdades e referências que igualam as mulheres com gado, e permitem que os homens tratem as mulheres da maneira mais atroz possível. No processo, eles não só violam os princípios básicos do islã, como também ajudam a demonização e os estereótipos de toda a comunidade.


Eles tratam suas esposas, irmãs, mães e filhas injustamente e, mesmo que involuntariamente, ajudam as campanhas Hindutva (não sei o que isso significa). Os guardiões autonomeados do islã estão fazendo o maior desserviço aos muçulmanos e ao islã. É uma pena que até mesmo alguns assim chamados "muçulmanos educados", cegamente apoiam estes guardiões, graças ao senso comum da suposta superioridade masculina que eles sofrem.

Por que nenhum esforço está sendo feito para desafiar os guardiões patriarcais que estão dentro de nossa comunidade? Por que é que apenas as mulheres muçulmanas têm que iniciar um desafio contra esses elementos hegemônicos? Por que os muçulmanos "educados" não apoiam a luta das mulheres muçulmanas pelos direitos corânicos de justiça e igualdade? Ou eles irão sempre permitir que os clérigos conservadores continuem decidindo o que é certo ou errado para milhões de outros muçulmanos? Eles não estão cientes de que no islã não há espaço para intermediários entre Deus e os crentes? E por último, que legitimidade eles têm de questionar as mulheres muçulmanas que se levantam e lutam por seus direitos corânicos?

Estamos contando aqui algumas evidências diretas sobre o pensamento do homem muçulmano como sendo dominante e hegemônico, e que isso é uma clara violação dos valores islâmicos de justiça e equidade. Isso não quer dizer que não existam homens muçulmanos excepcionais e corajosos; todos nós conhecemos alguns deles em nossas respectivas esferas. Mas, como um todo, é o processo de pensamento conservador patriarcal que domina a nossa conduta.

Nós, mulheres muçulmanas, nos reunimos no rescaldo da comunal violência de Gujarat em 2002, para nos opormos de forma inequívoca às forças comunais e exigir a reabilitação e justiça para os sobreviventes. Nosso trabalho no momento foi centrado em torno do combate à discriminação, e exigimos igualdade de cidadania às minorias.

Quando começamos a conhecer e aprender com outras mulheres, que estavam espalhadas por diferentes partes do país, identificamos um pensamento comum e a necessidade de nos unirmos como uma entidade nacional. Estávamos com muita garra e coragem para lutar contra as circunstâncias adversas, pela igualdade dos cidadãos em nossas respectivas regiões e contextos locais.



Depois de interações informais ao longo de quase dois anos, percebemos que compartilhávamos uma comunhão de propósitos e tínhamos uma visão de mundo parecida. Sentimos que os muçulmanos indianos, apesar das garantias constitucionais, eram pobres e para trás. Concordamos que nossos direitos corânicos nos foram negados, graças à conexão entre as forças patriarcais na nossa comunidade e vários governos. Decidimos, então, mudar essa situação.


Estávamos certas de que as mulheres precisavam acabar com a chamada liderança masculina na comunidade muçulmana da Índia, que era a responsável por todo o fracasso ao nosso redor. Formamos o Bharatiya Muslim Mahila Andolan em janeiro de 2007. Nosso nome foi um exercício muito calculado e considerado. Sentimos a necessidade de um nome que explicitamente mostrasse o que representávamos. Éramos como Bharatiya, como qualquer outra pessoa que não oferece desculpas por ser muçulmano e Bharatiya. Ninguém pode se apropriar da palavra Bharatiya e excluir os outros.

Montamos nossa visão de mundo em torno de nossa missão, onde afirmamos claramente que acreditamos nos valores da justiça, da igualdade, do pluralismo e da democracia, consagrados na Constituição da Índia. Nós também afirmamos claramente que não enxergamos qualquer contradição entre estes valores e os valores corânicos. Nós trabalhamos para atingir os valores do Alcorão, bem como os direitos da cidadania. Solidarizamos com todos aqueles que estão trabalhando em nome da justiça e da igualdade em nosso país e no mundo.

Também declaramos que acreditamos no secularismo, na harmonia religiosa e na coexistência pacífica, em oposição ao comunalismo e a intolerância. Queremos desenvolver uma voz alternativa na comunidade muçulmana, que esteja enraizada no pluralismo e no respeito mútuo entre as comunidades. E nós estamos certas que tudo isso deve ser representado por vozes femininas pois, as regressivas vozes masculinas falharam em conseguir qualquer coisa para os muçulmanos indianos em sessenta anos após 1947.

Embarcamos em uma viagem com missão e foco nos direitos da cidadania da nossa comunidade excluída. Uma campanha sobre as conclusões e implementação das recomendações do Comitê Sachar foi retomado nos anos iniciais a nível nacional e em vários Estados. Assim que iniciamos nosso projeto as mulheres começaram a se tornar membros, e muitas foram confrontadas com a realidade da discriminação legal contra as mulheres muçulmanas.


Em todos os estados as mulheres começaram a vir até nós dizendo: "Eu me divorciei por via oral"; "Fui expulsa após triplo talaq, Para onde vou com meus filhos?" ; "Meu marido se divorciou de mim através de um cartão-postal"; "Eu fiquei na casa dos meus pais por dois meses e o meu marido se casou com outra mulher"; "Meu marido se divorciou de mim e agora me quer de volta; o Qazi quer que eu me submeta ao halala" (ou seja, se casar, consumar o casamento com outro homem, divorciar dele, e só então se casar de novo com o seu ex-marido) etc etc.

A triste realidade da hegemonia masculina, que manda e desmanda em nossa comunidade ostensivamente em nome do islã, tornou-se evidente para nós! Não podemos pedir às mulheres para ficarem caladas! Percebemos que a solução a longo prazo reside na codificação da lei pessoal muçulmana, baseada nos princípios corânicos. E isso nos trouxe para o confronto direto com as forças patriarcais estabelecidas que sempre falaram em nome da religião. Nós não estamos tentando aqui apenas dar um resumo do nosso trabalho; qualquer leitor/a interessadx pode visitar nosso site. (Unidas somos mais fortes). (www.bmmaindia.com)


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