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sábado, 26 de março de 2016

Tirando o Véu

Imposição do véu islâmico: o que simboliza a invisibilização das mulheres

Por: Yasmin Alibha
Fonte: CMI Brasil

A maioria das religiões pintou as mulheres como pecadoras malignas e sedutoras perigosas. O Islã conservador reavivou essa mentira para os nossos tempos.

Poderia ser uma crise milenar ou uma reação tardia a décadas de problemas históricos, mas milhões de muçulmanos parecem ter decidido regredir, desejando uma Idade de Ouro imaginária. Eles desprezam os valores flexíveis e dinâmicos da modernidade. Alguns são seduzidos por dogmas reacionários, e pregadores em número cada vez maior lançaram-se no Islã político para "resistir" e "combater hegemonias ocidentais" - ou pelo menos é o que dizem. 

Sendo uma muçulmana praticante, eu assisto aos novos puritanos com apreensão. Assim como muitos outros muçulmanos em todo o mundo, a maioria silenciosa, assisto e me preocupo. 

A partir do século 8 até o início do século 20, os muçulmanos lutaram por educação ampla (como manda o Alcorão), questionaram doutrinas e eram apaixonados por avanços científicos, ideais políticos e sociais e arte. Nem mesmo o humilhante domínio colonial conseguiu impedi-los de marchar para a frente. Agora, os manifestantes estão andando para trás. O hijab, jilbab, burca e niqab são sinais visíveis deste retiro dos valores progressistas. 

Este artigo talvez vá dividir as pessoas. Mulheres de que eu gosto e respeito usam hijabs e jilbabs para articular sua fé e identidade. Outras o fazem para seguir seus sonhos, para ir para o ensino superior ou postos de trabalho. E um número crescente está fazendo disso uma declaração política. Eu não estou supondo que as vestimentas de todas representam simplesmente opressão. O que estou dizendo é que muitas mulheres que usam o véu, em qualquer de suas formas, o fazem sem compreender plenamente suas implicações, significado ou história. Sua escolha, mesmo se feita de forma independente, não foi completamente analisada. 


Yasmin Alibhai-Brown

Feministas muçulmanas do passado criticaram e repudiaram o véu. Um deles era um homem, Qasim Amin, um juiz e filósofo egípcio, que em 1899 escreveu A Libertação da Mulher. Ele foi o John Stuart Mill do mundo árabe. Huda Shaarawi criou a união das mulheres egípcias no início de 1920. Um dia, em 1923, quando desembarcou de um trem no Cairo, ela tirou o véu e reivindicou seu direito de ser visível. As mulheres iranianas educadas publicavam revistas feministas e faziam campanhas contra o véu nessa mesma época. Essas pioneiras são apagadas da história ou criticadas como "marionetes do Ocidente" por alguns intelectuais muçulmanos contemporâneos. 

Após a transformadora década de 1960, as feministas muçulmanas retomaram a luta pela igualdade. O domínio europeu tinha acabado. Era a hora. A acadêmica marroquina Fatema Mernissi, a egípcia Nawal El Saadawi e a estudiosa paquistanesa Riffat Hassan, todas defenderam a emancipação feminina. Elas corretamente viam o véu como uma ferramenta e símbolo de opressão e subserviência. Além do Véu (1975), de Mernissi, é um texto clássico. Assim também A Face Oculta de Eva (1975), de El Saadawi. Mas os princípios islâmicos mais conservadores e reacionários dominaram lugares, comunidades, famílias, cabeças e corações. 

A promessa dessa versão é um retorno às certezas e à "pureza" da crença, uma missão apoiada pela Arábia Saudita e outros países do Golfo. Revivalistas Deobandi, financiados pelo dinheiro árabe, agora percorrem mais mesquitas na Grã-Bretanha do que qualquer outro grupo muçulmano. Mulheres são orientadas (e pressionadas) a não viajar sem parentes do sexo masculino, não trabalhar, ser subserviente, usar véu. Esse movimento começou como uma reação contra o indiano Raj e transformou-se em um credo fundamentalista. Hoje, seu discurso contra o "imperialismo cultural" agrada a muitos jovens muçulmanos alienados. E, em parte, explica a crescente popularidade do niqab, véu e hijab completo. 



Mas no Corão, o véu é mais usado metaforicamente para descrever barreiras entre bons e maus, crentes e não crentes. Em dois versos, as mulheres são instruídas a baixarem seus olhos, e para cobrir suas partes íntimas e seios. Os homens também são instruídos a baixarem seus olhos, e se vestir com modéstia. Um verso comanda as mulheres na família do profeta para usarem o véu, em parte para protegê-las contra os inimigos e suplicantes. 

Sahar Amer, professor associado da Universidade da Carolina do Norte, estudou essas liminares sagrados: "[Agora] o hijab é usado para impor, não apenas recomendar, a necessidade das mulheres muçulmanas de usar um lenço na cabeça ou quaisquer outras peças de roupa muitas vezes vistas cobrindo as mulheres nos países islâmicos. Mesmo depois de ler essas passagens sobre o código de vestuário feminino, permanece a dúvida sobre o que exatamente o hijab é: é um lenço simples? Um purdah? Um chador? Ou algo mais? Quais partes do corpo exatamente é necessário cobrir? Apenas o cabelo? O cabelo e pescoço? Os braços? Mãos? Pés? Face? Olhos?" 

Véus, na verdade, são anteriores ao Islã. Zoroastristas e senhoras bizantinas de classe alta vestiam para se diferenciar da plebe. Quando os exércitos do Islã chegaram à Persia pela primeira vez, ficaram chocados com esse esnobismo; mais tarde, eles adotaram o costume que antes detestavam; na visão deles, o controle sobre as mulheres foi reforçado. 

A maioria das religiões descreveram as mulheres como pecadoras e sedutoras. O Islã conservador reavivou a calúnia para os nossos tempos. As mulheres têm de ser sequestradas ou contidas para não fomentarem a luxúria masculina e causarem desordem pública. Algumas jovens muçulmanas argumentam que véus as libertam de uma cultura moderna que objetifica e sexualiza as fêmeas. Esse argumento tem seu apelo; mas se for verdade, por que tantas usuárias de hijabs vestem calças jeans apertadas e tops decotados, e por que tantas mulheres muçulmanas fazem lipoaspiração ou implantes de silicone nos seios? 

É complicado: véus para mim representam tanto arrogância religiosa quanto a subjugação feminina; ambos assexualizam e ao mesmo tempo sexualizam. As mulheres são vistas principalmente como seres sexuais cujos cabelos e corpos provocam o desejo masculino e a desordem no espaço público. A alegação de que os véus protegem as mulheres da lascívia e do desrespeito carrega um elemento de autoengano. Estive em cerimônias de formatura, onde as alunas do sexo feminino cobertas se recusaram a apertar a mão do chanceler. Mulheres com véus têm provocado confrontos sobre o seu direito de usar o véu, nos tribunais, nas escolas, nas faculdades e nos locais de trabalho. Eu considero suas vitórias como uma rejeição do compromisso social. 



E ainda mais preocupantes são as jovens muçulmanas. Meninas estão sendo coagidas a vestirem hijabs e jilbabs, se transformando em seres sexuais muito antes da puberdade. Você pode até comprar hijabs elásticos para bebês com logos falsos de Calvin Klein e Versace. 

Assim como uma mulher seminua, uma mulher totalmente coberta representa uma afronta à dignidade feminina, autonomia e potencial das mulheres. Em ambos os casos são marionetes, que internalizaram mensagens masculinas errôneas sobre feminilidade. Uma mulher em uma roupa preta completa, o rosto e os olhos mascarados, caminhava perto de onde eu estava sentada em um parque recentemente, mas ela não podia falar. Atrás do tecido, ela era mais inacessível do que uma fortaleza. Ela tinha uma menina em um carrinho de bebê. Seu filho estava correndo ao redor. Será que a garota seria colocada, logo em seguida, em um hijab? Que será que o filho espera de sua irmã e esposa um dia? Que elas nunca mais tenham o sol a aquecer o seu rosto, a brisa tocando seu cabelo - que é o que Deus quer? O que aconteceu com a irmandade? 

Será que aquelas que optam pelo véu pensam nas mulheres do Irã, Arábia Saudita, Afeganistão, Paquistão, Iraque, e até mesmo no Ocidente, que são processadas, açoitadas, torturadas ou mortas por não usarem? Esta não é uma escolha independente - não pode ser. Sabemos a opinião de algumas usuárias britânicas de hijab, mas aquelas que são forçadas não podem falar. Uma mulher de burca uma vez apareceu em minha casa, uma estudante, cheia de cortes, queimaduras, hematomas e mordidas por baixo do pano. Quantas mulheres machucadas andam por aí, escondidas entre nós, com as marcas convenientemente cobertas pelas roupas? A violência sexual na Arábia Saudita e Irã é assustadoramente alta, assim como a dismorfia corporal. 

A liberdade está sendo atacada pelo novo ardor islâmico. A proibição de estilo francês pode ser imprudente e injusta. Mas as instituições podem aplicar códigos de vestimenta. Uma bancária não pode se vestir como uma stripper; uma criança não pode levar um aparelho de TV para a escola. Deve haver regras e elas devem ser cumpridas, dentro do razoável. Em 1899, Qasim Amin alertou que, a menos que os muçulmanos abraçassem a modernidade e a igualdade, o futuro seria sombrio. Estamos imersos em trevas agora, e poucos se atrevem a falar sobre isso. 



7 comentários:

  1. Que texto maravilhoso! Daqueles para ser lido e relido, sempre! Adorei a reflexão, especialmente no que diz respeito à responsabilidade das mulheres que podem optar por usar ou não o véu. Apesar de terem a opção (ao contrário da imposição de muitos países), não compreendem seu real significado e as consequências que o uso traz para as mulheres que não têm voz para lutar contra essa opressão.

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    1. Também achei maravilhoso, deveria ser lido por todas as muçulmanas

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  2. Estamos apenas obedecendo a ALLAH,
    DEUS nao muda...Ele é o mesmo ontem e sempre...
    E bom andar coberta, me sinto bem

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    1. Silvia Nonato vc não está obedecendo a Deus, não existe tal regra no quran!

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  3. Estamos apenas obedecendo a ALLAH,
    DEUS nao muda...Ele é o mesmo ontem e sempre...
    E bom andar coberta, me sinto bem

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  4. O texto é lindo!! Sou uma brasileira nata, mas como mulher venho me envergonhado que por tanta liberdade, já venha se tornado libertinagem. Nunca fui vulgar, sempre fui sensual sem mostrar seios e bunda. Digo que em qualquer sociedade ocidental ou oriental existe grandes problemas... Não é um veu colocado ou tirado que mudará isso, e sim respeito, Amor e humanidade. Eu hoje me sentiria bem usando um véu. Por isso o livre árbitrio, hoje falta bom senso.

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    1. verdade, nas sociedades orientais também existe muita libertinagem, só que tudo é feito por baixo dos panos, ou dos véus rs leia o artigo sobre o bioco, fala justamente sobre isso. abxs

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