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domingo, 29 de maio de 2016

~Biôco~

Não foram apenas os países muçulmanos a adotar a burca. Portugal também a teve, em circunstâncias opostas.

No dia a dia, nos deparamos com histórias e mistérios que ficaram escondidos e que muitos desconhecem. É o caso da utilização da burca em Portugal. Mas, onde foi utilizada a burca? Por quê? Quem a utilizava e em que contexto? Quando foi extinta? Todos nós associamos o uso da burca à cultura muçulmana e à mulher; no entanto, não foi apenas a cultura desses países e dessa religião que utilizou a burca como peça de vestuário da mulher. Em Portugal, a burca também era utilizada. Remontemos ao Algarve no século XVIII e no início do século XIX.


O livro "Crônicas do Algarve", do antigo Governador Civil de Faro, Júlio Lourenço Pinto, fala da utilização da burca, apelidada em Portugal de "bioco", como meio de fidelidade conjugal. Era uma espécie de máscara, feita de tecido negro, por onde apenas se viam os olhos da mulher e não havia qualquer elegância nem beleza.


Contudo, se a burca é utilizada nos países muçulmanos por imposição do homem, no caso da burca portuguesa acontecia exatamente o contrário. O bioco era utilizado pela mulher por gosto próprio e servia como disfarce, permitindo uma certa liberdade à mesma, pois ninguém sabia quem era a mulher que estava vestida daquela forma. Por exemplo, uma mulher que fosse pecadora poderia vesti-la com o intuito de não ser reconhecida na rua.



Entretanto, no reinado de Dom Carlos, o Governador Civil, autor da obra acima referenciada, viria a abolir esta peça de vestuário por meio de um decreto-lei do Regulamento Policial de Faro, no artigo 32, datado de 6 de setembro de 1892, no qual se refere que seria proibido o uso dessa peça nas ruas e templos de todo o distrito. No entanto, houve a exceção do Conselho de Olhão, no qual a peça foi utilizada até os anos 30 do século XX. O autor via nesta peça apenas "um vestígio da cultura islâmica".

Outro exemplo muito próximo da burca é o capelo, que foi utilizado na Ilha Terceira e que ainda hoje é bastante retratado no folclore dessa região, assim como nas suas festas populares.

Lurdes Silva, natural do Porto, “apaixonou-se” pelo bioco quando visitou o Museu do Trajo, em São Brás de Alportel – local onde se podem encontrar cópias de alguns exemplares. O amor à primeira vista por uma peça de vestuário, confessa, não é coisa rara. Mas, neste caso, houve mais do que isso. Essa professora da Universidade do Algarve, na área nas ciências econômicas e empresariais, sentiu necessidade de mergulhar na cultura da região. “Levei dois anos a investigar a história desta peça”. Por fim, decidiu partilhar os conhecimentos e começou a produzir biocos colocando, no forro da peça, a história deste vestuário contada em português e inglês. Em 1922, no livro Os Pescadores, Raul Brandão dizia que se tratava de “um traje misterioso e atraente”, que alimentava especulações. Numa passagem da obra, referindo-se às mulheres de Olhão, escreve: “Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos”.

Mas qual é a relação da burca com o bioco? A burca, diz Lurdes Silva, é uma “imposição masculina, aqui passa-se o contrário: o homem não quer que ela use, mas ela usa para ter mais liberdade”. Por conseguinte, os três modelos que concebeu, com design de Maria Caroço, puxam pelo lado estético da peça, sublinhando as histórias amorosas e o sentido da liberdade. Por isso, cada um tem a sua designação: mistério, tradição e paixão. O preço dos modelos recriados varia entre 139 e 159 euros.

Maria Veleda, dirigente feminista (1871-1955), defendeu que o uso desta capa - que tanto desagradava o representante do poder central na região como a alguns intelectuais da época – conferia liberdade à mulher porque esta podia de sair de casa a qualquer momento e em qualquer circunstância sem ser reconhecida. À noite, acrescenta Emanuel Sancho, as mulheres só poderiam sair se fossem acompanhadas pelos maridos.

Sobre a matéria, Lurdes Silva lembra a inquietação que se desencadeava na cabeça dos homens à passagem de um vulto de mulher, vestida de negro. “Os homens não sabiam quem era a mulher que lhes despertava o interesse – poderia ser, de forma oculta, a sua própria companheira”. A ideia vem expressa no relato de Raul Brandão, quando escreve sobre Olhão: “De quem são aqueles olhos que ferem lume?”, pergunta o escritor no livro Os Pescadores, relatando a passagem de um vulto feminino no lajedo da rua, deixando no ar o som do cloque-cloque do calçado. Ao longe, retrata, “já o fantasma [mulher] se esvaiu, deixando-nos a impressão de mistério e sonho”. E levanta a dúvida, ou a suspeição: “É uma mulher esplêndida que vai para uma aventura amorosa?”. 

Assim, por entre relatos mais ou menos fiéis (e de infiéis), construiu-se o mito da mulher embiocada. Júlio Lourenço Pinto, no extinto jornal O Distrito de Faro, publicou crônicas onde relaciona alguns destes relatos com os romances das Mil e uma Noites, para chegar à conclusão, em tom crítico, de que o uso do bioco só serve para “estontear as cabeças dos modernos paxás algarvios”.

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