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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Muçulmanos homossexuais encontram na África do Sul uma mesquita que é um autêntico santuário

Por Jaime Velazquez

A mesquita gay da África do Sul é uma pequena sala com janelas cobertas por cortinas venezianas, um tapete verde e um Qibla apontado para Meca. Na parede, pode ler-se o famoso verso do Corão: "Não há outro Deus além de Alá". Cada sexta-feira, mais de uma dúzia de homens e mulheres homossexuais visitam aquele lugar de culto, liderado pelo único imã do país abertamente gay, Muhsin Hendricks. 

A homossexualidade não é pecado. Não há necessidade de alterar a tua maneira de andar ou de falar para eludir os olhares condenatórios. Deus aceita-te tal como és. Podes até aspirar a um casamento abençoado. Aqui podes ser gay. E muçulmano.

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Em comparação com muitos países africanos, onde o sexo homossexual é considerado um crime e pode vir a ser punido com a pena de morte, a África do Sul é o último bastião do liberalismo. Foi o primeiro país que proibiu a discriminação com base na orientação sexual, na sua Constituição. E é o quinto país do mundo - e o primeiro africano - a legalizar o casamento entre casais do mesmo sexo. 

Mas a realidade nas ruas é diferente. Os gays, as lésbicas e os transexuais enfrentam, todos os dias, segundo os ativistas, as "violações corretivas", a discriminação e a violência. "Se pudessem, cortavam-te a cabeça. Não o fazem porque seriam presos", diz Taj Hargey, um ativista contra a intolerância islâmica. Foi ele que fundou a Mesquita Aberta e que acolheu crentes de todas as raças, gêneros e sexualidades na Cidade do Cabo, no ano passado. 




A sua mesquita foi atacada várias vezes. Mas ali mesmo, no fim da rua onde os muçulmanos rejeitados pelas suas comunidades podem ir rezar, ao contrário do lugar de culto de Hargey, a Mesquita do Povo, liderada por Hendricks, descreve-se explicitamente como um lugar gay de culto. E foi montado para se manter longe a atenção pública.

Hendricks tem sido um pioneiro na luta pelos direitos dos homossexuais muçulmanos da África do Sul nos últimos 18 anos. Foi uma "vocação" baseada na sua própria experiência e na sua incapacidade de aceitar-se, admite. Filho de um imã, sempre quis ser clérigo, mas, quando ainda era uma criança, estava convencido de que iria para o inferno. Ele não conseguia compreender como um Deus de compaixão o podia castigar por algo que não tinha sido ele a escolher. 

Com 21 anos, mudou-se para uma escola salafista no Paquistão, onde se apaixonou por um dos estudantes. No entanto, casou-se com uma mulher e teve três filhos, convencido de que isso o poderia mudar. O jejum também não o ajudou. Ele saiu do armário aos 29 anos. 


"Eu pensava ser o único com este problema... Mas vi muita gente que, como eu, não tinha as ferramentas necessárias porque não tinha estudado o islamismo. E foi assim que comecei a ajudá-los", lembra Hendricks, sentado no tapete da mesquita, vestido com uma túnica branca e um xale bege.

"É um lugar seguro. Aqui simplesmente não julgamos as pessoas".
Em 1996, formou um grupo de apoio e uma plataforma de ativismo chamada Inner Circle, cujo objectivo era "integrar os direitos do islão com os direitos humanos", que fora desprovida de qualquer forma de discriminação. Depois, abriu a Mesquita do Povo na sua casa em 2011, porque era algo bastante procurado. 

"É um lugar seguro. Quando te sentas numa mesquita convencional, estás a fazê-lo porque gostas e porque te queres conectar com Deus, mas o imã diz-te constantemente que algo dentro de ti está errado", explicou ele à VICE. "Aqui, simplesmente não julgamos as pessoas. Deve ser um lugar onde também se pode questionar o islão; é isso que acho que uma mesquita deve fazer". 


Hendricks estudou durante anos os versos do Corão, especialmente aqueles que falam de Sodoma e Gomorra, e que têm sido usados para condenar a homossexualidade. 

"Em Sodoma e Gomorra existem uma série de atrocidades e apenas uma delas é de natureza sexual", afirma Hendricks. "O assalto e a violação é abordado quando as vítimas são humanas e os atos sexuais que constituem uma violação do direito à integridade de uma pessoa. [Mas] não se refere à orientação sexual. O Corão não diz nada a esse respeito". 

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"Eu costumava chorar, e perguntava porque é que um Deus do amor e da misericórdia tinha decidido castigar uma criança tão pequena".
Prepara um chá numa cozinha que cheira a orquídeas frescas e passa a ferro as suas vestes no quarto da sua mãe. Ao lado do armário, estão pendurados uma dúzia de sapatos de saltos altos, sapatos que Ziyaad tem calçado todos os dias desde que tinha cinco anos.

Foi sempre uma criança feminina, lembra. Recita os versos do Corão com uma voz suave e melódica, mas Ziyaad é um homem forte. O namorado dele era um mafioso. Agora está preso por assassinato.
Ziyaad foi viciado em drogas durante quase quatro anos. Ele fumava "tic", uma versão degradada da metanfetamina muito popular nas zonas marginais da Cidade do Cabo. Ziyaad não era capaz de conciliar a sua fé com a sua orientação sexual. A sua vida não era fácil.

"Eu sou o irmão mais velho e o meu pai queria que eu fosse o seu herdeiro. Eu queria jogar futebol, ele batia-me quando me via andar de uma determinada maneira e eu tinha de me esconder se quisesse fazer alguma coisa que não fosse relacionada com mulheres", disse Ziyaad à VICE. "Quando saí do armário aos 16 anos, ele deserdou-me. Deixou de falar comigo e ignorava-me quando nos víamos na rua. Só consegui reconciliar-me com ele no leito da sua morte. Foi então que, com 21 anos, pude começar a viver a minha vida. Antes tinha sempre de ter muito cuidado para que ninguém contasse ao meu pai que eu era gay."

"É maravilhoso ter pessoas como tu, a rezar e a falar com Deus ao teu lado"
Estudar numa escola islâmica não era fácil. Os seus amigos estavam sempre a gozar com ele. "Eu era uma criança religiosa", disse. "Eu costumava ler os versículos do Corão em que Alá fala de Sodoma e Gomorra, os mesmos versos que os imãs usam para condenar a homossexualidade. E chorava, perguntava por que um Deus do amor e da misericórdia tinha decidido castigar uma criança tão pequena. Eu estava deprimido e não estava satisfeito com as respostas que os imãs me davam: diziam-me para rezar e pedir a Alá que me mudasse.

"Eu compreendi que tinha de aceitar-me como sou. Fui a terapia de grupo para homossexuais, mas não me podiam ajudar em relação à minha religião. O islã é muito conservador. Está tudo dirigido à figura masculina. Todas as orações dizem-te que tens de casar-te e ter filhos para fortalecer a religião. Mas quando sais do armário... Como é suposto viveres com todas as expectativas? Foi então que conheci o Imã Hendricks e ele disse-me que não era proibido ser gay e muçulmano"


Durante o último ano, Ziyaad tem frequentado a mesquita e tem ajudado outros homossexuais em seminários onde aprendem "a história da homossexualidade", o que os ajuda a reconciliar-se com a sua sexualidade. Hoje, a caminho da mesquita, usa a sua longa túnica preta, óculos escuros e uma bolsa por cima do ombro. 

"É maravilhoso ter pessoas como tu, a rezar e a falar com Deus ao teu lado", diz ele.

A cerimônia das sextas-feiras na Mesquita do Povo é igual a qualquer outra cerimônia nas mesquita do mundo. Hendricks conduz as orações e realiza o seu sermão. Hoje fala do Corão como livro sagrado; mas é mais do que um mero objeto físico: é algo que vive dentro das suas páginas, diz Hendricks, criticando aqueles que se ofendem quando um livro é queimado. 

Um homem que assiste às orações partilha uma história. A semana passada foi a um evento em que acadêmicos muçulmanos falavam sobre o racismo e a tolerância. "Por que falam sobre tolerância quando passam todo o tempo a semear ódio e divisão nas suas mesquitas?" pergunta ele. 

As mulheres e os homens rezam juntos na mesma fila. Entoam a súplica juntos. Pedem a Deus que os ajude, que lhes perdoe, mas sem nunca considerarem a sua orientação sexual. Ao terminarem as orações, juntam-se e abraçam-se uns aos outros. Não se trata de um ato homossexual. "O mesmo acontece nas outras mesquitas", diz um homem quase como se estivesse a justificar. 

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