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domingo, 7 de agosto de 2016

Gay, muçulmano e com orgulho

AutorOmar Shahid
FonteNewStatesman
TraduçãoLuiz Henrique Coletto

A Primavera Árabe também tem dado espaço à diversidade sexual. Foto: Getty Images.
O tema da sexualidade tem estado no centro de debates religiosos há séculos, e desde o século passado as manifestações não heterossexuais têm deflagrado ataques e defesas inflamados no interior das diversas práticas religiosas. Enquanto parte tanto do movimento LGBT quanto dos próprias grupos ateístas, céticos e humanistas não vê esta como uma “boa luta”, outra parte está agindo diretamente sobre isso. Especialmente quando se trata de gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans* que também são católicas, protestantes, muçulmanas, espíritas, etc.
O Islã tem sido construído no imaginário ocidental, especialmente nas representações da mídia, como uma das práticas religiosas mais hostis à diversidade sexual. Não sem razão ou lastro na realidade, é fato. Por outro lado, é do interior desta própria prática religiosa que surgem as iniciativas de vivências e interpretação mais inclusivas, como neste relato de Omar Shahid, editor de uma revista britânica voltada para o público jovem.

Gay, muçulmano e com orgulho

O Islã, também, agora está tendo que se confrontar as realidades da vida cotidiana.
“Você é hétero, não é?” alguém do grupo com o qual estou me pergunta enquanto caminhamos pelos portões do Regent’s Park em Londres. Quando confirmo que sou, a reação dele é rápida: “É uma pena.” Eu estou acompanhando os membros do Imann, um grupo de apoio para LGBTs muçulmanos, que está celebrando o fim de uma conferência que durou quatro dias na região de Soho.
Já dentro do parque, sou apresentado a dezenas de homens e mulheres muçulmanos – alguns estão jogando futebol enquanto outros estão relaxando e aproveitando o sol. O clima é visivelmente amigável. Observando ao redor, há muçulmanos jovens, de meia-idade, introvertidos e extrovertidos no encontro; é também uma reunião multiétnica. Deitado sobre sua jaqueta está Scott Kugle, de 43 anos – um americano branco convertido ao Islã e autor do livro Homossexualidade no Islã. Eu pergunto o que um gay americano teria visto no Islã – não é esta religião frequentemente percebida como homofóbica e intolerante? Ele senta-se: “Eu não abracei o Islã como um gay muçulmano”, diz calmamente, “Eu adotei o Islã enquanto um ser humano.”
Enquanto continuamos nossa conversa, meninos e meninas estão interagindo de forma livre, alguns se abraçando e beijando, ações anátemas [execráveis] para encontros muçulmanos tradicionais. Para muitos muçulmanos LGBTs, entretanto, religião é principalmente sobre amor – todo o resto é secundário. Enquanto as escrituras islâmicas são frequentemente usadas para condenar a homossexualidade, os LGBTs muçulmanos com os quais conversei oferecem uma interpretação alternativa, mais inclusiva.
Isso não significa que LGBTs muçulmanos negligenciem suas práticas religiosas. Uma das primeiras ações que eles fizeram no parque foi a oração Asr, a prece do meio da tarde. Yusef Gojikian, de 28 anos, tem herança Palestina-Libanesa, é assistente social no Imann e está usando um tradicional gorro muçulmano verde. Ele não vê por que motivo – a não ser por sua orientação sexual – ele é diferente de qualquer outro muçulmano. “Eu oro cinco vezes por dia e leio o Alcorão,” ele diz.
Também converso com uma jovem lésbica do sul da Ásia, que prefere não ter o nome divulgado porque ainda não saiu do armário para seus pais. Ela está vestindo um jilbab verde, traje longo e folgado que cobre o corpo todo. “Ninguém me obriga a utilizar isso. É uma escolha completamente minha,” ela afirma.
O trampolim árabe
Uma vez que o sol se põe e todos começam a partir, eu tenho a chance de continuar conversando com Kugle, que está excitado com os recentes acontecimentos globais. “A solidariedade pública a partir da Primavera Árabe vai criar muitas alianças. Alguns e algumas ativistas da Primavera Árabe são gays e lésbicas e estão procurando uma maneira de se expressar.” Não para por aí. “Na África do Sul, há uma real presença na mídia e o discurso sobre LGBTs muçulmanos está começando a mudar,” ele me conta.
Ao contrário de muitos movimentos por direitos civis dos anos 1960, LGBTs muçulmanos não estão tomando as ruas demandando por mudança. Mas encontros em público como este são significativos mesmo assim. Enquanto a questão do casamento homossexual nas Igrejas Cristãs tem sido intensamente debatida na Inglaterra recentemente, o assunto ainda precisa penetrar no discurso islâmico mainstream, em parte porque muitos muçulmanos acreditam que a proibição à homossexualidade é imutável.
Mas o Islã, também, agora está tendo que se confrontar com as realidades da vida cotidiana.

Omar Shajid é editor político da revista para o público jovem “Live” (live-magazine.co.uk)

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