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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Muçulmanos "Malinches"

O mito diz que Malinche, uma princesa asteca, por amor e pelo desejo de ser amada pelo conquistador, colonialista e explorador estrangeiro espanhol, traiu seu povo, sua cultura e sua fé. O nome dela, dizem com desdém, é utilizado na América Latina para apontar aqueles que, a fim de agradar os estrangeiros acima de seu próprio povo e familiares, sacrificam a sua identidade e tradição.

A América Latina tem experimentado, nos últimos anos, um aumento da presença do islã no continente. Como muçulmanos, nós apoiamos e promovemos a liberdade de consciência que leva nossos irmãos e irmãs a abraçarem o islã como uma jornada espiritual, assim como nós mesmos fizemos. No entanto, também sabemos, pela vivência e aprendizado com outros muçulmanos latinos, que se converter ao islã, para os latino americanos, significa assumir a posição de Malinche pois, para provarmos nosso amor e desejo de sermos reconhecidos como parte do islã, empreendemos um processo violento de desapego e alienação de tudo o que nos identifica como latinos.

Do branco ao árabe colonizador

"Você não é porto-riquenho/mexicano/chileno (brasileiro), agora você é um de nós."

Mesquitas na América Latina e no Caribe são espaços colonizados de culto. Algumas foram fundadas por imigrantes muçulmanos, outras são produtos das políticas de repúblicas islâmicas, como Arábia Saudita e Irã, para expandir o islã no exterior, onde imams e sheiks são como funcionários públicos.

Ambos falharam miseravelmente (se é que já não fazia parte de seus propósitos) em abraçar costumes e cultura locais.

As mesquitas são espaços onde a violência epistêmica e o abuso espiritual estão ativados sob o véu da dawa. Um convertido não tem nenhuma voz: mantidas por pessoas ricas da comunidade, com segregação por gênero, decoradas ao estilo Oriente Médio, serviços em língua estrangeira (que você deve aprender se quer ser um "verdadeiro muçulmano") e um código de vestuário que se assemelha ao do Egito, Qatar, da Turquia ou do Paquistão, tudo está lá para servir como uma moldura para a alienação. 

A autoridade islâmica é inquestionavelmente masculina, personificada no santo, ou quase santo imam. O "legítimo" imam, geralmente do Oriente Médio, ou um latino que foi minimante adaptado a outra cultura que não a dele, que falará de sua própria identidade original como a fonte de todo pecado e desvio, que irá certificar-se em reforçar a sua importância, evitando qualquer coisa relacionada à autonomia e responsabilidade individual, um princípio fundamental na prática islâmica espiritual.



Todo esse esforço de dawa não parece traduzir-se em muçulmanos mais felizes, dispostos a assumirem suas partes do Califado, livrando-se das injustiças e trazendo misericórdia ao mundo. O convertido não pode se envolver com nada de seu próprio contexto: todo livro, exceto o Alcorão, todo conhecimento, exceto o transmitido pelo imam, todo o convívio social, exceto eids, é haram, e até mesmo sua própria família é uma turma de kfrs ou infiéis. (Não podem ouvir música, precisam mudar os seus nomes para um nome árabe, não podem comemorar Natal, não podem pintar, ou gostar de pinturas, não podem tirar fotografias, precisam usar palavras em árabe...).

Nossa Vulva Latina Radioativa

"Vocês não são mais Carmencitas, agora vocês são Khadijas." (ou Aishas)

Como muçulmanas latinas, somos mulheres de segunda classe e presumidamente incompetentes em nossas comunidades muçulmanas. Não importa o quanto sabemos sobre o islã ou se nosso conhecimento supera a de um nascido muçulmano (ou mesmo a de um imam), nunca sabemos nada aos olhos de nossos irmãos/ãs (irmãos e irmãs naturalmente insultam e denigrem a imagem de irmãs que buscam conhecimento e fogem do status quo muçulmano. Usam palavras como "a que foi abandonada por um árabe e se revoltou", "a que tem a pia cheia de vasilhas e está na internet", "a burra", "a que a comunidade já sabe bem que é desviada", "a da turma dos kfrs", "a carente que precisa de uma pica", "a que deveria ir para esquina se foder", "a desviada que quer desviar outros irmãos/ãs"... A lista de insultos grosseiros e rudes é enorme). Não ter a aparência, nome, língua, códigos culturais de um árabe, um indiano ou um paquistanês, faz de nós filhas de um Deus menor, de tal maneira ainda conectada à misoginia que já existe nas narrativas, espaços e práticas da corrente principal do islã na América latina. Tudo o que nos define como uma mulher latina, forte e educada, nos invalida como muçulmanas. 



Sem mencionar o nosso passado sexual. Uma convertida, no mínimo, foi uma pessoa com um passado não islâmico vergonhoso ou, pelo menos, esperam que a gente se sinta assim. Isto é muito violento, porque a maioria dos latinos que vêm para o islã são adultos que já tiveram relacionamentos, filhos ou um casamento anterior; ou seja, uma vida! Como a maioria das pessoas neste planeta. (e como a maioria dos nascidos muçulmanos que fazem por debaixo dos panos).

Para ser um convertido, você tem de ser uma pessoa sem história e contexto, e isso é especialmente verdadeiro para as mulheres. Se você é uma mãe solteira ou divorciada, seu moral é posto em dúvida e você é a última da lista de "potenciais esposas". Se você é uma mulher casada, terá de se divorciar de seu marido não muçulmano, abandonar o trabalho, e se juntar às fileiras das "divorciadas" na esperança de que algum nascido "muçulmacho" esteja disposto a conceder-lhe  um casamento muçulmano "legítimo" e uma família, para que, então, você possa ser apoiada financeiramente, complete a sua religião e se torne uma "verdadeira mulher muçulmana".

Estereótipos que hipersexualizam mulheres latinas nos meios de comunicação de massa alimentam o preconceito de homens muçulmanos leigos com efeitos devastadores sobre nossas irmãs, como você pode ler aqui e aqui. (Toda mulher latina, muçulmana ou não, sabe bem o que homens de países de maioria muçulmana pensam sobre nós. Em um debate com um paquistanês há alguns dias, isso ficou ainda mais evidente para mim. Ele colocou várias carinhas sorridentes ao lado de dizeres do tipo: "procure no google sobre pornografia", "procure no google sobre nudez", "a maioria das mulheres que está lá são ocidentais/latinas". Isso foi um homem muçulmano falando para uma muçulmana. Fora os pedidos mentirosos de casamento que a maioria recebe, a enganação e falta de respeito que a maioria já sofreu, fotos de pênis, etc...)

Somos ensinadas que devemos amar nosso captor, que devemos valorizar seus costumes e linguagem acima dos nossos. Estamos flertando com a libertação cultural e espiritual após 500 anos de colonização, mas está ocorrendo a troca ao invés da libertação, estamos novamente trocando nossas almas por cristais coloridos, somos empurrados a viver a Maldição de Malinche para sermos considerados "verdadeiros muçulmanos". Percebemo-nos indignos e incompatíveis com o sagrado se vivemos de forma autêntica e original.

Como muçulmanas latinas, somos orgulhosas latinas e sinceras muçulmanas, lamentamos que muitos irmãos e irmãs estejam condicionados a aceitar a violência da arabização, acima da liberdade espiritual do islã. Convertidos tornaram-se reféns em sua própria casa e estrangeiros em seu próprio país, incentivados a desistir de sua história, cultura e identidade para serem amados por um Deus que nunca pediu por isso, porque Deus nos criou "em culturas e grupos diversos para que possamos nos reconhecer e aprender uns com os outros" e celebrar essa diversidade é parte do plano.

Queremos dizer a todos que abraçaram, como nós, essa viagem chamada islã, que nenhuma pessoa tem o poder de aceitá-lo como um crente, apenas Deus pode, já que não há compulsão no deen e, acima de tudo, devemos aceitar a todos como dignas e amadas criações de Deus. Ame-se como perfeita criatura de Deus, que se destina a ser livre e feliz na raça, corpo, linguagem, cultura que lhe foram dados como bênçãos. 

Se você perguntar a um sheikh estrangeiro: o que posso fazer para ser parte da tawheed? Nossa resposta é: nada, você já é parte de Deus, e está com Deus. Você está em sintonia com a unidade divina desde o momento em que foi criado. A jornada espiritual que abraçamos é alcançar a consciência da unicidade que já existe. Você é parte da tawheed, já que você é parte da criação. Sua vida é a melhor prova, é a credencial suficiente. Não permita que ninguém lhe diga o contrário.

Por Vanessa Rivera de La Fluente & Sumayah Soler
Tradução Pollyanna Meira

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