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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A Grande Hipocrisia do Véu Muçulmano


'World Hijab Day' está mais que oxidado. Antes de tudo, é hora de fazer do véu uma questão de escolha no Irã e na Arábia Saudita.


Muitos dos meus companheiros muçulmanos têm incentivado mulheres não muçulmanas a usarem um lenço em solidariedade aos muçulmanos. Condenados pelo horizonte limitado de seu contexto ocidental, e legitimamente preocupados com o crescente fanatismo anti-muçulmano nos Estados Unidos e na Europa, algumas mulheres não muçulmanas obrigaram-se a colocar um lenço na cabeça. Acredito que essas mulheres estavam e estão erradas ao fazê-lo, e aqui está o porquê.

Usar um lenço apenas no Dia Mundial do Hijab está terrivelmente abaixo de nossa responsabilidade moral. Afinal de contas, é chamado de Dia Mundial do Hijab. Assim, não são só as mulheres muçulmanas ocidentais que devem ser consideradas aqui, mas também as outras milhões de mulheres muçulmanas que vivem sob teocracias ao redor do mundo, para quem o Dia Mundial do Hijab é cumprido a cada dia, e pelo resto de suas vidas.

Como argumentou a colunista e militante feminista muçulmana Asra Q. Nomani: "O hijab não é imposto apenas através do vestuário, mas também através de códigos culturais de honra ('irdh) e definições de modéstia (hayaa’) que, se quebrados, podem levar a punições severas."

Essas mulheres não muçulmanas - satisfazendo um fetiche orientalista cobrindo suas cabeças - não pararam nem por um momento para considerar que, em contrapartida, na Arábia Saudita, no Irã e sob o regime do Talibã ou ISIS outras mulheres também querem nossa solidariedade?

A maioria das mulheres muçulmanas, atacadas em todo o mundo pela maneira como se vestem, são atacadas por muçulmanos islamistas e fundamentalistas, não por não muçulmanos, este é, simplesmente, um fato inegável.

Esses religiosos fanáticos as consideram "não suficientemente muçulmanas"(quando não usam o véu ou quando o usam inapropriadamente). A suposição de que "apoiar muçulmanos" significa apoiar apenas aquelas que usam lenços é falsa. Apoiar muçulmanos também pode significar apoiar as mulheres muçulmanas que optam por remover o lenço pois, não são menos muçulmanas. O Dia Mundial do Hijab só faria sentido se as muçulmanas religiosas e conservadoras simultaneamente tirassem o lenço em um "No Hijab Day" para protestar contra as teocracias muçulmanas. (e a imposição do véu)

Quando eu sugeri isso em um tuíte, isso provocou uma pequena tempestade de tuítes, que, infelizmente, era previsível.

Sou liberal. O véu é uma escolha. Deixe as muçulmanas usarem biquínis ou burcas. Sociedades liberais não têm que interferir legalmente no que a mulher escolhe vestir. Eu sempre me opus à proibição do niqab na França, assim como eu me oponho à sua aplicação no Irã e na Arábia Saudita.

Fora deste debate jurídico, porém, e como muçulmano liberal e reformista, me reservo o direito de questionar as tradições culturais e os tabus de minha comunidade. E, como liberal, me reservo o direito de questionar dogmas religiosos conservadores em geral, assim como a maioria dos progressistas já fizeram no cristianismo.

O fato de que é OK, para os meus companheiros muçulmanos, sugerir o uso do hijab por um dia, mas estas mesmas vozes estão horrorizadas com a mera sugestão de remover o hijab, indica o quanto que dogmas religiosos conservadores têm engolido nossa comunidade muçulmana.


Quando se trata dos muçulmanos, os ocidentais liberais parecem perenemente confusos entre possuir o direito de fazer alguma coisa e estarem certos ao fazê-lo.

Por exemplo, os cristãos americanos fundamentalistas têm o direito de falar, mas os não muçulmanos liberais rotineiramente - e com razão - desafiam suas opiniões sobre questões como o aborto e direitos matrimoniais. Fazer isso não é questionar o direito de fala dos cristãos, mas desafiar a crença de que eles sempre estão certos quando falam.

Para mim, todo liberal, muçulmano ou não, deve adotar essa mesma política em relação aos muçulmanos religiosos e conservadores, a menos que eles tenham um duplo padrão para os povos muçulmanos, e pensam que eles são incapazes ou merecedores de liberdades extras. Se os liberais se sentem confortáveis desafiando as atitudes cristãs fundamentalistas em relação ao casamento e ao controle da natalidade, então, devemos ser igualmente confortáveis desafiando a teologia da "modéstia" da religião muçulmana.

Por que uma mulher usando um lenço na cabeça é considerada mais modesta do que uma sem, e que implicação isso tem nas atitudes em relação à "honra" das mulheres que não se cobrem? Só um racismo de baixas expectativas impediria os liberais de fazerem essas perguntas aos muçulmanos religiosos e conservadores. Nenhuma ideia está acima do escrutínio, assim como nenhuma pessoa deve estar abaixo da dignidade.

Na verdade, a palavra hijab em árabe significa "tela/barreira/cortina", não lenço na cabeça. Isso é usado tradicionalmente pelos muçulmanos para denotar a atitude e conduta da mulher, não apenas sobre seus cabelos, mas também em relação a conservadoras suposições religiosas. O niqab é o véu do rosto, o jilbab é um vestido longo, e a burca é a cobertura, estilo talibã, de corpo inteiro.

As mulheres muçulmanas usam um véu chamado "hijab" por diferentes razões. Para algumas é simplesmente um "dever religioso", outras acreditam que é um sinal de "modéstia", algumas usam como um emblema de identidade, para estas o hijab é como uma bandeira muçulmana. E outras, ainda, são obrigadas por suas famílias. 

Mesmo quando o véu é adotado pela "escolha individual", o que está por trás é uma conservadora suposição religiosa. A teologia da modéstia: onde mulheres que não usam véu são de algum modo pecadoras, menos modestas e não piedosas; é o que nós liberais devemos criticar. Pois, na raiz, é essa mesma atitude que é invocada em homicídios de "honra" e em odiosos ataques com ácido.

Muitos não muçulmanos simplesmente acreditam que existe apenas uma maneira -conservadora- de ser muçulmano. Mas nós muçulmanos não somos mais este outro distante e nativo que os liberais podem se dar ao luxo de homogeneizar, visitar uma vez por ano e depois tirar férias. Nós nascemos e crescemos entre vocês, e o islã agora é firmemente nativo em nossas sociedades.

Os ingênuos não muçulmanos precisam estar cientes que a intervenção e interação com muçulmanos em debates inter-religiosos em torno dessas questões não é neutra. Teólogos muçulmanos liberais, como Usama Hasan, da Grã-Bretanha, e Javaid Ghamidi, do Paquistão, argumentam que o hijab não é um dever religioso (fard), mas uma escolha religiosa (mubah). Também, há vozes muçulmanas progressistas, como a da falecida feminista Huda Sha'rawi, que argumentou: "Como o véu é apenas uma escolha ditada pelo costume ('urf), e esse costume mudou, as mulheres muçulmanas devem ser encorajadas a removê-lo." Em 1923, em praça pública no Egito, Sha'rawi fez exatamente isso.

Além de ignorar os danos causados pelas teocracias, é esta diversidade interna que o Dia Mundial do Hijab corre o risco de obscurecer entre os não muçulmanos.

Então, sim, vamos ter um dia dedicado à questão do hijab. Mas não vamos chamá-lo Dia Mundial do Hijab, vamos chamá-lo Dia da Escolha do Hijab

MAAJID NAWAZ, The Daily Beast
Tradução Pollyanna Meira

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