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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Para mim véus não são símbolos de solidariedade, mas de opressão.

Nushin Arbabzadah foi criada no Afeganistão e fugiu para a Europa como refugiada. Ela agora ensina mídia do Oriente Médio na Universidade da Califórnia, Los Angeles.
Tradução Pollyanna Meira


Nushin Arbabzadah

As imagens de mulheres americanas usando lenços em solidariedade às mulheres muçulmanas me levam de volta a uma manhã fria no início dos anos 80. Naquele dia, como uma criança da escola primária de Cabul, no Afeganistão, eu aprendi que, como uma menina nascida em uma sociedade muçulmana, o cabelo na minha cabeça não era meu.



De pé, na estrada que corria ao lado do prédio principal da escola, eu assisti bigodudos polícias secretos levarem em macas cerca de uma dúzia de meninas da minha escola. Eu estava perplexa. No dia seguinte, na regular assembléia geral da manhã, no campo da escola, nossa diretora nos disse que os mujahedin tinham envenenado o nosso poço de água porque as alunas não estavam cobrindo os cabelos corretamente. Ela declarou que a partir de agora, a escola seguiria regras muito mais rigorosas. Ninguém mais poderia usar lenços que vagamente ficavam pendurados nas cabeças, ou lenços finos que as garotas mais rebeldes penduravam ao pescoço, "como cobras", disse ela.



Minha escola decidiu se sujeitar aos mujahedin, ou "guerreiros santos", em vez de desafiá-los e derrotá-los. A partir desse dia eu tive que usar um lenço branco. Aprendi que o cabelo em minha cabeça não era apenas um campo de batalha para uma guerra ideológica entre o governo secular e os mujahedin. Era também um símbolo político que poderia ser negociado sem o meu consentimento.



Meus cabelos não me pertenciam. Pertenciam ao regime de Cabul apoiado pelos soviéticos por um lado, e seus inimigos, os mujahedin, apoiados pelo Ocidente do outro. Meu cabelo era o alvo de uma guerra por procuração.

Mesmo a escola tendo se sujeitado aos mujahedin, cobrindo nossos cabelos, a violência ao nosso redor tornou-se ainda mais intensa. Nossos lenços não conseguiram apaziguar nossos detratores e parar a violência religiosa. Anos mais tarde, como uma jovem mulher conquistando graus em Hamburgo e Cambridge, eu aprendi que o poder atribuído ao meu cabelo tinha sido extremamente exagerado. Os austeros tradicionalistas fizeram de meu cabelo um vilão, tentando homens e desonrando a sociedade, enquanto os homens que disparavam foguetes, explodiam carros e envenenavam as meninas, depois de todo caos e assassinatos, escaparam. Na realidade, meu cabelo estava impotente.



Cinco anos atrás, eu voltei a minha escola em Cabul. Lenços agora cobriam até mesmo os cabelos de crianças de três anos de idade, do jardim de infância. Mas isso não parou a violência. Fora da escola, os guerreiros "sagrados" estavam agora cometendo atentados suicidas. Nesta altura, porém, eu já estava fora do círculo moral dos mujahedin. Eu aprendi que as sociedades podem ser pacíficas e prósperas mesmo quando as mulheres revelam seus cabelos. Desta vez, eu só cobri meus cabelos para me proteger da violência. Mas sob o meu hijab imposto, eu sabia que o nosso cabelo tinha sido inocente o tempo todo.



Mulheres não muçulmanas, usando véus por um dia, querem expressar "solidariedade" às mulheres muçulmanas, mas as muçulmanas NÃO PRECISAM se cobrir. Este ato de solidariedade perpetua uma versão do Islã que diz que é O.K. envenenar meninas que se atrevem a sentir a luz do sol em suas cabeças.

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