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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

"SOU UMA IMAMA"

Asma Bhol prega um islã inclusivo que acolhe pessoas de qualquer gênero, sexualidade e minoria

Quando menciono o que faço, as pessoas se surpreendem. Eu sou, provavelmente, o oposto do que elas esperam. Entristece-me saber que para elas você tem que ser de uma certa maneira para fazer o que faço, mas, ao mesmo tempo, não me incomoda.

Asma Bhol

Sempre soube que eu iria fazer algo para mostrar que o islã é uma religião inclusiva. Quando eu tinha 15 anos, recusei-me a ir para a nossa mesquita no leste de Londres. Senti-me constrangida ali, como um pássaro que sacode na gaiola. Eles ensinam que Deus é divino - que não há sexo ou face humana - mas todos se referem constantemente a Deus como "Ele", essa era uma das coisas que me incomodavam.

Agora, 13 anos depois, eu sou um "imama" - a palavra tem significados diferentes para diferentes seitas muçulmanas, mas, para mim, é a versão feminina de imam. Eu dirijo as orações de sexta-feira na Inclusive Mosque Initiative em Londres, que acolhe pessoas de qualquer gênero, sexualidade ou minoria em igualdade de condições. Recebemos cerca de 20 a 50 pessoas em uma típica sexta-feira. Eu sou voluntária na mesquita e trabalho como terapeuta ocupacional.

As imamas ainda são uma raridade. Elas estão em mesquitas de mulheres, pequenas, mas que estão crescendo. Por exemplo, uma mesquita que abriga orações na sexta-feira apenas para mulheres abriu na Dinamarca este ano, nos EUA abriu outra em 2015 e há uma parte da China que por gerações sempre tiveram imamas. Houve também eventos únicos de oração onde estudiosas levaram congregações mistas. O recente aumento é realmente positivo, isso me faz sentir menos sozinha.

Na minha adolescência, comecei a reaprender o islã por mim mesma, estudando os textos e seguindo estudiosos que praticam um islã mais inclusivo. Um estudioso experiente me treinou para liderar orações, casamentos e cerimônias fúnebres. Eu ainda sou um bebê neste processo de aprendizagem, mas eu realmente estou gostando. Quando você estuda a religião por si mesma, você vê que ela é aberta e pacífica.


O Corão não diz que mulheres não podem ser imamas. Na prática, a visão dominante atual nas comunidades muçulmanas é que é bom para uma mulher levar orações para outras mulheres, mas uma mulher liderando uma congregação mista em oração, como eu, tende a incomodar algumas pessoas.

Eu comecei a liderar a oração de sexta-feira há quase dois anos. Eu não me sentia nervosa - era natural. Sinto-me capacitada. Mas, ao mesmo tempo, eu me perguntava se estar à frente, como mulher, incomodava as pessoas. Tive de me lembrar várias vezes que todos haviam concordado com a minha posição.

Dependendo da sua experiência e confiança, um imam ou imama também está lá para dar aos indivíduos orientação e aconselhamento espiritual privado. As pessoas vêm a mim com problemas relativos a seus filhos, casamentos e relacionamentos em geral. Uma das minhas partes favoritas é ajudar as pessoas a superar suas lutas, especialmente os jovens.

O islã não tem um corpo central que ordena imams. Tradicionalmente, as comunidades escolhiam quem tinha o conhecimento mais profundo do islã. Eu realmente gosto da ideia de que, enquanto a sua congregação o vê como um imam, você é um. Mas, cada vez mais, as mesquitas só acolhem teólogos com graus e estudos em escolas específicas. Eu definitivamente consideraria estudos formais no futuro, desde que eu encontre uma instituição em sintonia com meus valores. Muitas imamas tomaram esse caminho.

Asma Bhol

A reação da minha família foi diversificada. Claro, digo-lhes o que eu faço e temos discussões abertas - e então, concordamos em discordar. Nós encontramos o nosso equilíbrio. Eles não me chamariam de imama - eu acho que eles simplesmente diriam "líder da comunidade" - mas eu estou bem com isso como eu sei também, que do ponto de vista de muitas pessoas da corrente principal, eu não teria esse reconhecimento.

Uma grande coisa que aprendi recentemente é aceitar não ser aceito. Isso é muito poderoso.

Por Financial Times
Tradução Pollyanna Meira

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