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quinta-feira, 23 de março de 2017

A Revolução Iraniana em Persépolis de Marjane Satrapi

Ariel dos Santos Oliveira
Raquel Torrecilha Spiri1

1. Introdução


Em Persépolis (2000–2003) Marjane Satrapi narra de forma impactante e ao mesmo tempo sutil um delicado episódio dentro da história recente do Irã, a Revolução Iraniana de 1979, que viria a depor o regime pró-ocidente do Xá Mohammad Reza Pahlevi em detrimento de uma república fundamentalista comandada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. Através de diálogos marcantes, sempre provocativos, e de uma reconstrução memorial baseada em experiências próprias, a novela gráfica revela a mistura de sentimentos que tomou conta do Irã pós-Revolução de forma pessoal e singular. Satrapi, argumentista, ilustradora e protagonista da história mostra ao leitor sua experiência de crescimento e amadurecimento em meio a supressão de direitos, reformas culturais e demais transformações abruptas que tomaram conta do país.


2. Contexto Histórico; Autor e Obra


Publicado originalmente em quatro volumes entre 2000 e 2003, Persépolis é um romance autobiográfico em quadrinhos de Marjane Satrapi, nome artístico de Marjane Ebihamis, e retrata sua infância até o início de sua vida adulta. O título é uma referência à antiga capital do Império Persa. A Graphic Novel narra a vida de Satrapi enquanto seu país era virado do avesso a partir de 1979, com o advento da Revolução Iraniana. Em questão de meses, o Irã, então comandado pelo Xá Mohammad Reza Pahlevi, experimentou uma transição de uma monarquia autocrática pró-Ocidente para uma república islâmica teocrática comandada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.


Para melhor compreender o contexto revolucionário do modo como é tratado na obra de Satrapi, se faz necessário, no entanto, lançar um olhar mais aprofundado para o Irã pré-revolução governado pela dinastia Pahlevi, que ascendeu ao poder em 1926 e como suas características secularistas e anticlericais viriam a contribuir para o aumento da popularidade do aiatolá Khomeini, e, antes mesmo disso, para a Revolução Constitucional Persa de 1905. (COGGIOLA, 2007; p.24)


A Revolução Constitucional entra no contexto das extravagâncias do governo autocrático do Xá Mozaffar ad-Din Shah Qajar e da ingerência da Rússia e da Inglaterra no país durante o período imperialista. A burguesia nascente unida com outros segmentos sociais organizou protestos e desestabilizou a ordem estabelecida. Entre os religiosos não havia unanimidade. Muitos aderiram à causa constitucional, acreditando na redução do poder monárquico e no consequente aumento, por vias democráticas, da influência religiosa. Outros, por sua vez, temendo que as reformas fossem apenas as primícias de uma instauração republicana, opuseram-se ao movimento. Com o enfraquecimento do poder imperial a vitória da Revolução foi inevitável: a constituição é aprovada e o parlamento persa é fundado. (Ibid.; p.37). Todavia, a influência estrangeira se fortalece na mesma proporção em que a dinastia Qajar perde o seu prestígio. 


Com a Revolução Russa, em 1917, o bolchevismo se torna um perigo iminente na Pérsia. 


Temendo a crescente influência soviética na região, a Inglaterra utiliza o Irã como base para o controle geopolítico da Ásia. Como resposta, a União Soviética invade a Pérsia e cria a República Socialista Soviética da Pérsia, no norte do país. Em 1920 a monarquia já havia perdido todo o controle do império, sendo a influência dividida mais uma vez entre as duas potências estrangeiras. Neste contexto o ativismo político pró-Inglaterra se fortalece no Irã, principalmente como resposta ao crescente medo do comunismo. (SAID, 2007; p.45)


Oficial da Brigada Cossaca Persa, fundada no séc. XVIII, Reza Khan se une a Sayyed Zia, articulador de um futuro golpe de Estado que pretendia manter a monarquia, afastar o bolchevismo e modernizar a Pérsia. Com a desmoralização do Xá e sendo o mais prestigioso líder militar de seu tempo, a tomada de poder se deu de modo rápido. Em 1921 Reza Khan controla Teerã, capital do Irã, forçando a dissolução do governo anterior, em seguida é nomeado Ministro da Guerra e toma para si o título de Comandante-em-chefe das Forças Armadas, que era exclusivo do Xá. Neste mesmo ano, o cientista político Mohammed Mossadegh é nomeado Ministro de Finanças do Irã, desempenhando também, entre anos de 1923 e 1925, o papel de Ministro de Negócios Estrangeiros por seu país. O fortalecimento do poder político e militar de Reza Khan, assim como o apoio popular, principalmente depois da bem-sucedida estabilização da Pérsia, foi responsável por sua ascensão ao posto de Primeiro-Ministro do Irã. (COGGIOLA, 2007; p.40)


O medo do republicanismo por parte do clero era tremendo. A experiência da Turquia, com Ataturk e a abolição do seu califado, atirou os religiosos nos braços de Reza Khan, apoiando de modo incondicional a sua proclamação como Xá. Em 1925 o parlamento formalmente depõe Ahamad Qajar e meses depois proclama Reza Khan como Xá da Pérsia, tomando o sobrenome de “Pahlevi”, fazendo referência à glória imperial dos tempos pré-islâmicos e iniciando a nova e última dinastia persa. (Ibid.; p.40)


Reza Pahlevi inicia o seu governo baseado na premissa da Revolução Constitucional: a modernização do Estado. Endossando ainda mais o seu carisma, busca criar um poder central capaz de gerar as mudanças institucionais queridas pela classe política. Suas reformas atingem todo o Irã. Dada sua posição política nacionalista à época, Mossadegh fora forçado se retirar da vida política por defender maior controle iraniano de seus recursos, permanecendo, inclusive, em cárcere por dois anos. (Ibid.; p 12). É a partir de 1930 que Reza Pahlevi passa a governar de modo cada vez mais ditatorial, desmerecendo o parlamento e escolhendo ministros de acordo com as suas predileções pessoais. A criação de um Estado burocrático ofusca o completo controle da máquina pelo imperador. 


Neste contexto as reformas judiciais são aprovadas; além de omitirem quaisquer referências às Leis Sagradas, retiram do clero o papel judicial e o incorpora ao recém-criado Ministério da Justiça. A codificação de um corpo legal de clara influência europeia, faz com que, pela primeira vez em sua história, a união entre a lei sagrada e civil na Pérsia seja rompida. (Ibid.; p.42)


Como parte da sua política de modernização do Estado, Reza Pahlevi capitaliza a memória da glória do Irã pré-islâmico, buscando romper com as tradições xiitas. Em 1925 retoma o calendário solar persa, uma derivação do calendário zoroastriano. Em 1928, no movimento de adoção das modas e hábitos ocidentais, o Estado declara guerra aos clérigos. O consumo de bebidas alcoólicas é estimulado chegando a abrir centros de comercialização na cidade sagrada de Qom. Ademais, o ensino do Corão, livro sagrado do Islã, e qualquer tipo de instrução religiosa nas escolas são proibidos. Em 1935, Reza Pahlevi aprova a mais ousada de suas leis, obrigando a remoção dos véus pelas mulheres, se necessário com uso de força policial. Contudo, o restante das políticas de secularização foi aprimorado por Mohammed Pahlevi, seu filho, agora oficializado como Xá da Pérsia. Seu pai abdicara do Trono do Pavão devido à pressão dos Aliados que temiam que a sua simpatia pró-nazista colocasse o Irã na zona de influência alemã. (Ibid.; p.44). Com a invasão do país em 1941 por forças anglo-soviéticas, o Xá deixa o poder e parte para o exílio. 


Com a autoridade absoluta em mãos e uma classe clerical humilhada, Mohammed Pahlevi continua a reforma anticlerical de seu pai. A figura de Khomeini começa a se destacar pelo seu carisma e sua autoridade, acusando o Xá de trair seu juramento de defender o Islã e a Constituição. O Aiatolá denuncia severamente a violação constitucional e o autoritarismo da dinastia Pahlevi. Com a brutal manifestação dos seus seguidores em protesto contra o regime, Khomeini é preso e exilado para a Turquia, de onde segue para Najaf, no Iraque. Inicia-se o seu êxodo e o fortalecimento da sua figura como representação de toda a oposição ao Xá. Entretanto, Mohammed Pahlevi, incapaz de fazer uma análise política sensata, continua com as suas incursões anticlericais. Invade o centro teológico de Qom e pretende controlar a esfera religiosa através de uma estrutura burocrática de religiosos governistas. O despertar da oposição clerical era mais do que natural. O que não se esperava era a liderança e a capacidade dos clérigos de capitalizar as forças de oposição e depor o Xá, ainda que isso demorasse mais algumas décadas. Por conta de pressões internas relacionadas a popularidade do ex-Ministro de Finanças, o Xá Mohammed Pahlevi foi obrigado a nomear o nacionalista Mossadegh como Primeiro Ministro. Seu governo não somente levou o Irã a nacionalização do seu petróleo, mas também foi responsável pelo rompimento de relações diplomáticas com a Grã-Bretanha, o que contribuiu para o agravamento da crise e para a aproximação com os Estados Unidos. (Ibid.; p.53)


O desenvolvimento de uma teologia populista revolucionária, por parte do leigo Ali Shariati, foi fundamental para o ganho do tom progressista à oposição ao regime. Baseado na concepção da unidade entre Deus e o povo, reflexo da noção de singularidade, os seus escritos endossam o regime islâmico como a manifestação do verdadeiro poder popular. (Ibid.; p.54)


No final da década de 1970, com a crise econômica e com a incapacidade de ampliar a participação política, os poucos setores sociais que ainda não tinham se rebelado contra o regime do Xá, finalmente aderiram à causa revolucionária. A união dos clérigos com o Bazar estava mais do que consolidada. A classe média, politicamente desorganizada, foi incapaz de tomar a liderança do movimento. Dentro de alguns dias estava sepultado o Império Persa. Nascia a República Islâmica do Irã. (Ibid.; p.82)


Os eventos narrados pela autora têm início no ambiente que se encontra Irã imediatamente antes do estouro da Revolução Islâmica com a saída do Xá. É possível inferir, entretanto, elementos da vida pré-revolucionária do país a partir do relacionamento da autora-personagem com familiares, amigos e nação, relatado na Graphic Novel. Compreende-se que, no poder desde 1941, Pahlevi teve forte influência ocidental para manter-se em tal posição até a década de 1970, influência esta que se refletiu no cotidiano iraniano durante décadas: a cultura ocidental penetrou no país através do que é chamado de “Revolução Branca”. Além disso, o extravagante regime monarca se esgotou e não era mais compatível com vida no Irã, o que também foi responsável por uma movimentação popular em oposição ao governo. Dessa forma, grupos liberais, de esquerda e religiosos, formaram alianças em busca da deposição de Pahlevi em 1979. (SATRAPI, 2013; p.5)


Marjane, nascida em Rasht e criada em Teerã, no Irã, em um lar liberal e intelectual, teve a oportunidade de estudar em escolas bilíngues, aprendendo a língua francesa além do idioma persa, podendo ter contato, inclusive, com diversas obras da literatura política contemporânea, fator que contribui significativamente em sua formação pessoal. Aos dez anos de idade, em 1979, seu país, antes influenciado pela cultura ocidental, passa por um processo de resgate de tradições islâmicas. A oposição ao Xá não era só política, mas principalmente religiosa à época, o que refletiu na vida de Marjane, ainda enquanto criança. 


O primeiro volume, de quatro que compõe a obra Persépolis, conta a perspectiva de Satapri no momento imediato após a Revolução Islâmica, desde sua repercussão midiática ao convívio entre as crianças na escola. É possível compreender o surgimento de um dualismo presente na transição de regime no Irã: o resgate de valores religiosos em contraposição a modernização que prega a liberdade individual e social. O dualismo, então, ocorre em dois níveis, o nacional, no Irã – apresentado na obra como os protestos que ocorrem nas cidades – e o individual, com relatos pessoais da jovem Marjane. A personagem apresenta o fundamentalismo islâmico imposto pelo novo regime aiatolá como fator responsável pela privação de certas liberdades – principalmente no que tange às mulheres –, pela perseguição a presos políticos e pela invasão do Irã pelo Iraque. Entretanto, ao mesmo tempo, a própria Marjane se considera uma pessoa envolvida pelos valores religiosos com os quais nasceu. (SATRAPI, 2013; p.15)


A saída do Xá e o consequente processo de transição cultural ocorrido no Irã, bem como a onda de protestos, fragilizou o cenário político do país, no qual o Iraque viu uma oportunidade de intervenção para disputas territoriais. A Guerra Irã-Iraque, ocorrida entre os anos de 1980 e 1988, é relatada na Graphic Novel pelo ponto de vista de Marjane Satapri ainda criança, completando onze anos de idade. As notícias sobre o conflito são ouvidas pelo rádio qual narra os bombardeios ocorridos tanto nas fronteiras dos países quanto em suas capitais. A garota passa a compreender a dimensão da Revolução Islâmica neste momento pelas consequências da guerra no que se refere ao grande deslocamento interno no Irã, mas principalmente a destruição material que traz um conflito armado. 


O fato da Guerra Irã-Iraque significar uma ruptura na vida de Satapri está associado ao desenvolvimento da personagem e criação de sua identidade. Com o advento da violência trazida pelos bombardeios iraquianos em território iraniano e a pressão interna do novo regime islâmico, os pais de Marjane, preocupados com sua formação e integridade, a enviam, aos 14 anos de idade, por sua própria conta, para a Áustria para terminar seus estudos.  No estrangeiro, termina seu processo de assimilação da cultura Ocidental e passa pelo desafio de reafirmar sua identidade iraniana em meio a um ambiente completamente diferente qual está habituada. A necessidade de integração com os ocidentais fez a garota esquecer tradições iranianas, mesmo a língua persa, pela falta de prática. Com o fim da guerra em 1988, Marjane volta ao Irã para o seu antigo lar. Apesar do fim da violência, a autora-personagem relata que a ditadura islâmica ainda permanece no país, agora mais adaptado a revolução cultural que sofreu. Após completar seu ensino superior no Irã e sem perspectivas de se manter naquele regime na condição de mulher e liberal que é, Marjane se muda definitivamente para a França no ano de 1994, antes de completar 25 anos de idade, para focar em seu trabalho como artista. (SATRAPI, 2013; p. 341)


3. Núcleo da Obra e Perspectiva


Através de uma narrativa em primeira pessoa com doses criativas de bom humor, Marjane convida o leitor para conhecer seu mundo. Desde os 10 anos de idade, ela compartilha o modo de vida, os costumes e a rotina das meninas de sua idade nas escolas iranianas e no cotidiano local. Para tanto, ela discorre, por exemplo, sobre a obrigatoriedade dos véus e como ela e outras meninas reagiram a essa imposição.


Para Marji, a Marjane Satrapi de 10 anos, a Revolução significou ir para uma escola diferente, onde ela não poderia mais aprender francês (uma ameaça aos valores tradicionais da revolução) e meninos estudavam separados das meninas. Como toda mulher, ela também foi obrigada a utilizar o véu. Para a menina, as novas regras impostas pela revolução xiita (nada de escolas iguais para ambos os gêneros, mulheres sem véu, maquiagem, música pop, marcas e símbolos ocidentais, festas, bebidas...) são absurdas e dignas de protestos – como seus pais são abertos a diálogos políticos, Marjane é livre, ao menos dentro de casa, para conversar sobre as mudanças no Irã, o que significa que desde pequena ela compreende o ambiente de repressão –. Desta forma, Marjane discorre sobre o cenário conturbado e as sequelas que essas tão abruptas mudanças deixariam em sua formação enquanto pessoa. Percebe-se que desde pequena Marjane já era direta e revolucionária. Por vir de uma família politizada e bem instruída, desde pequena teve acesso a informações coerentes e críticas, qual é refletido em um senso de justiça bem apurado e no desenvolvimento de uma consciência de classe bem delimitada. (Ibid.; pp. 13 e 14)


O fato é que Marjane foi educada em um lar liberal e aprendeu desde pequena que poderia ser quem quisesse ser, algo não compatível com a visão de mundo imposta pelo novo governo, então a revolução islâmica mexeu com seus nervos ao ponto de fazer dela uma narradora ativa e feroz. Ao contrário da maioria, nossa protagonista decidiu não ficar calada e abaixar a cabeça para o regime de Khomeini e, exatamente por isso, sofreu grandes consequências: perdas, preconceito dos próprios amigos, inúmeras “quase prisões” e, finalmente, exílio do lar. Em uma passagem do volume 2, por exemplo, andar nas ruas trajando jaqueta jeans e tênis levou Marji a ser interrogada por uma patrulha de senhoras pró-Revolução. (Ibid.; p. 134)


Cabe ressaltar, no entanto, que tudo isso é apenas um detalhe perto do que acontecia no resto do país. Os pais de Marji, intelectuais liberais com vínculos com o governo pré-Revolução começam a perder amigos próximos, desaparecidos misteriosamente; vizinhos fogem enquanto podem – em 1981 o país fecharia suas fronteiras –; com o início da guerra com o Iraque em 1980, uma bomba poderia repentinamente cair em seu quintal. (Ibid.; p. 143)


Percebe-se que na medida em que Marjane vai crescendo, os problemas sociais do país também vão, a ponto de ela precisar ir embora do país. Com isso, novos conflitos são inseridos na história a partir dos relacionamentos que ela vai desenvolvendo ao decorrer do tempo. Além das decepções com as pessoas ao seu redor e as desilusões amorosas, há o fato de ela ser estrangeira e ter que enfrentar inúmeras dificuldades para sobreviver fora do seu país e se adaptar, além de questões mais gerais que integram uma série de temas instigantes e repletos de conteúdo.


Assim, o leitor acompanha três fases da vida de Marjane: infância, adolescência e vida adulta, as três permeadas de acontecimentos marcantes e fatos históricos relevantes. A opressão e discriminação direcionadas as mulheres no Irã é um dos aspectos centrais descritos na história, e a personagem central protagoniza cenas revolucionárias e corajosas por busca de igualdade de menina à mulher. Depreende-se, portanto, que Marjane é apenas uma garota querendo ser livre em meio a um ambiente em que a liberdade é para poucos. Em meio a toda a tristeza, terror e falta de perspectiva da situação do Irã, a biografia de Satrapi é forte ao revelar o que é ser uma civil no meio de uma revolução, de uma transformação cultural violenta e de uma guerra.


As belíssimas ilustrações são em preto e branco e em alto contraste, o traço de Marjane é limpo e simples e a narrativa é cheia de vida. Essa opção pela utilização do alto contraste em preto branco (essa técnica não permite os meios-termos entre os dois espectros, portanto nada de tons cinzas, que seriam naturais em outras obras sem a utilização de cores) pode ser inclusive interpretada como uma alegoria da dualidade essencialmente antagônica e até mesmo maniqueísta que a Revolução trouxe para sua nação: não há meio termo; a transformação política e cultural, sem preservar nenhum dos aspectos inerentes ao governo de Pahlevi, como a aproximação com a cultura pop ocidental, a liberdade feminina e a laicidade, foi tão violenta que só pode ser enxergada através do preto e branco, duas cores que estão nos dois limites opostos do espectro de cores, tal qual o Irã de antes e depois de 1979. (PIMENTEL, 1989; p.35)


A trama traz ainda outros lados da vida de Marjane: o crescimento em meio à revolução e as dúvidas política e religiosas que naturalmente surgem ao longo de sua trajetória de vida. 


Dilemas naturais a todos os adolescentes, como amizade, aceitação social, aceitação do próprio corpo e da própria beleza, primeiras vezes (primeiro beijo, primeiro amor, perda da virgindade, primeira experiência com substâncias psicoativas) e responsabilidades da vida adulta (faculdade, emprego, casamento, divórcio) são tratados de modo cru, o que contribui para a criação de uma ligação entre a obra e o leitor. (SATRAPI, 2013)


Tudo isso colabora para o enriquecimento da leitura, sempre muito real e envolvente. 


Torna-se doloroso e angustiante ler e ver o quanto Marjane sofreu, como a população persa tem sua história muitas vezes negligenciada pelo mundo, e como somos incapazes de mudar os avanços da dominação política nessa região. Persépolis é, afinal, uma obra capaz de tirar o leitor de sua zona de conforto.


4. Considerações Finais


Do ponto de vista das relações internacionais, a Revolução Iraniana não significou apenas uma ruptura política, mas também cultural, capaz de afetar os países da região com a elevação do número de refugiados e imigrantes. A Revolução também foi responsável pelo rompimento de relações com países, bem como pelo estabelecimento de novos vínculos com outros. Partindo do ponto de vista da guerra e do conflito, por sua vez, pode-se concluir que tanto a presença ocidental no Irã, quanto a Revolução Islâmica e a intervenção do Iraque durante o período que relata, estão relacionados a existência de um elemento chave em território do Médio Oriente: o petróleo, produto em crescente valorização na década de 1960, o que despertou interesse de potências ocidentais. Isto pode ser observado em uma passagem do primeiro volume de Persépolis, na qual o pai de Marjane diz a filha: “A verdade é que, enquanto existir petróleo no Oriente Médio, não vamos saber o que é paz...”. (SATRAPI, 2013; p. 44). Quando o Primeiro Ministro Mussadegh corta relações com a Grã-Bretanha visando a proteção da produção petrolífera do Irã, abre espaço para os Estados Unidos atuarem como nova potência aliada ao Irã em um contexto de Guerra Fria. (COGGIOLI, 2007; p. 14). Ademais, a década de 1980, é marcada na região pelo conflito com o Iraque, país que busca aumentar seu território e, consequentemente, a possibilidade de exploração de petróleo. 


Ler Persépolis é instigante sobretudo ao que se refere a reflexão sobre a cultura e história da região, além de revoltar ao mergulhar o leitor em uma trama política que cega a população com uma doutrina de supressão à liberdade. É claro que os eventos retratados na obra são compreendidos aqui sob um olhar estrangeiro, e, portanto, inerentemente carregado de preconcepções orientalistas, mas durante a leitura se torna impossível não pensar em como esse povo é oprimido por uma religião, que ao invés de libertá-lo com amor, o domina com ódio. E mais, em como as mulheres iranianas sofrem com o machismo velado imposto pela revolução cultural.


É impossível não refletir sobre a mensagem trazida pela autora: as dores da politização da religião.






Referências:

AHMED, Leila. Women and Gender in Islam: historical roots of a modern debate. New Haven e Londres: Yale University Press, 1992

BRAGA, Ana Cláudia Vieira. Norma Linguística e Oralidade Fingida na Tradução de Persépolis. Brasília, 2013. Disponível em: < http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/15091/1/2013_AnaClaudiaVieiraBraga.pdf>Acesso em: 16 de fev. 2017.
COGGIOLA, Osvaldo. A Revolução Iraniana. Editora UNESP, 2007
PIMENTEL, Sidney Valadares. Feitiço Contra o Feiticeiro: história em quadrinhos e manifestação ideológica. Goiânia: CEGRAF, 1989.
SAID, EDWARD. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SATRAPI, Marjane. Persépolis – Completo. Trad. Paulo Werneck. São Paulo: Companhia das Letras, 2013

Um comentário:

  1. Tente postar com um tamanho de letra maios, ou as leitoras ficarão cegas em poucas postagens (experiência própria!)

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