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terça-feira, 20 de junho de 2017

Crianças “sushi” desafiam a divisão Sunita-Xiita

O enredo de um episódio de uma série satírica da TV saudita provocou um amplo debate nas mídias sociais. A trama: dois bebês trocados na maternidade de um hospital saudita e criados por duas famílias radicais - uma sunita, a outra xiita. Anos depois, o hospital descobre o erro e cada filho, agora um jovem rapaz, vai viver com sua verdadeira família. 

Quando os respectivos pais descobrem que seus filhos foram criados por uma família de seita “adversária”, desesperadamente, tentam mudar as suas percepções religiosas e convencê-los de que eles não estão seguindo a “doutrina correta”.

Selfie, a série, estrela o popular porém controverso ator comediante Nasser Al-Qasabi.
No Twitter, o comediante pediu ao seu público que "apertassem os cintos" antes do episódio ser mostrado. Posteriormente, foi elogiado pelos telespectadores sunitas e xiitas.

Embora as vertentes sunita e xiita compartilhem crenças fundamentais, elas diferem em práticas religiosas, rituais e organização. A intensidade da divisão difere de um país islâmico para outro.

No mundo, a maioria dos muçulmanos são sunitas. Xiitas, que representam cerca de 10% da população muçulmana, são maioria no Iraque, Irã e Bahrein. Eles também constituem uma grande população na Síria, Líbano e Arábia Saudita. E são grupos minoritários no Egito e Jordânia.

Crianças “sushi”

Casamentos ente sunitas e xiitas ilustram a "sensibilidade" dessa divisão sectária em alguns países. Embora tais casamentos sejam comuns em países com grandes população xiita como o Iraque e o Líbano, são raras no Egito e na Arábia Saudita, governada por sunitas.

O tema “criança sushi”, como são chamados os filhos de sunitas com xiitas, continua a ser delicado para muitos.

Arij Umran (nome fictício) falou à BBC sobre sua experiência como uma jovem saudita que nasceu de pai sunita e mãe xiita.
“Meus pais se conheceram e casaram no Iraq há 40 anos. Casamentos entre sunitas e xiitas, naquela época, não eram tão importantes. Entretanto, quando eles voltaram para a Arábia Saudita, começaram a enfrentar algumas dificuldades”.

Arij conta que, quando criança, tinha que manter, secretamente, a doutrina de sua mãe porque muitos amigos pararam de falar com ela quando descobriram que sua mãe era xiita. Ela diz que seus pais tinham a mente aberta e apoiavam suas escolhas. Quando perguntou qual doutrina deveria seguir, eles disseram: “É seu dever descobrir. Precisa ler, aprender e nos contar o que decidiu”.

A jornalista de monitoramento da BBC, Mina Al-Lami, que nasceu no Iraque, em um casamento entre sunita e xiita, diz que ter um pai de cada seita era e continua a ser comum no Iraque, principalmente em áreas diversificadas, como Bagdá, a capital.
“Vivendo lá, eu nem sabia que havia duas seitas diferentes até meus primeiros 20 anos”, diz Mina. “Enquanto casamentos entre sunitas e xiitas diminuíram no Iraque, a partir de 2003, com tensões sectárias, eles ainda não são incomuns”, ela acrescenta.

A questão também foi abordada pela cineasta britânico-iraquiana Hoda El Soudani, em seu documentário “Por que eu não posso ser um sushi?”.
A cineasta contou à BBC: “A minha principal intenção era abordar objetivamente tanto as questões mais importantes quanto sobre ser possível uma seita ter em relação à outra, e então, derrubar conceitos equivocados para que pontes possam ser construídas, uma vez que percebem que possuem muito em comum.”

Ela diz que estava motivada em abordar esse assunto delicado depois de “ver o que estava acontecendo em outros lugares como na Arábia Saudita, no Iêmen, no Iraque...”

"A questão não é porque há diferenças de opinião, mas sim por que essas diferenças levaram à violência e animosidade. Para mim, o conflito parece ser mais político do que religioso, embora possa estar escondido por trás da linguagem religiosa."

"As pessoas podem dizer que o filme está retratando uma imagem romantizada de uniões entre sunitas e xiitas, mas eu diria que se existiu uma vez, então ela pode existir novamente. Tenho certeza de que podemos ser menos arrogantes e aceitar mais a outra seita. Elas precisavam se lembrar de voltar às suas origens e abraçar a simplicidade de ser apenas muçulmano, independentemente da seita que se segue", acrescenta Hoda.





Tradução por Ana Lúcia Meschke

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