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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Motivos pelos quais uma muçulmana feminista não deveria usar o véu (sem citar o Corão)

Uma dúvida ainda muito presente na mente de muitas muçulmanas é: "Por que devo parar de usar o véu?". Pois bem, decidi responder essa e outras questões que costumam ser levantadas, para esclarecer o porquê de nossa página defender o não-uso. Já adianto que possuo uma visão de mundo marxista, além de uma grande empatia pelo sofrimento das mulheres ao redor do mundo (motivos pelos quais eu mesma não uso mais o véu).

1) "Mas o feminismo não defende a liberdade individual?"

Existem várias vertentes feministas. O feminismo a qual se refere é o feminismo liberal, que está muito relacionado ao liberalismo socio-econômico, apesar de possuir algumas falas marxistas, e é o que mais está presente atualmente. Há vertentes, porém, que estão diretamente relacionadas ao marxismo, como o feminismo radical. O meio feminista islâmico costuma ter relação com o marxismo, porque acreditamos que o capitalismo lucra com o sofrimento do mundo, principalmente com a opressão das mulheres, e que apenas com a queda do capitalismo e com a reforma geral do islam as mulheres poderão ser livres de fato. Desse modo, o feminismo islâmico adere à visão de que a sociedade é composta de grupos sociais e não de indivíduos; e é claramente visível que, na sociedade islâmica, o grupo que mais sofre opressão é o das mulheres, que são obrigadas a usar o véu, caso contrário sofrerão severos castigos ou perseguidas por outros muçulmanos. 

2) "Mas, no Ocidente, as muçulmanas são proibidas de usar o véu e oprimidas pela sociedade por isso."

De fato. Mas devemos analisar o porquê de serem proibidas, antes de condenarmos quaisquer atitudes tomadas pelos governos (como o governo da França, que proibiu as mulheres de usarem o burkini).
Infelizmente, todos os governos ocidentais temem por suas seguranças nacionais devido aos ameaçadores ataques dos terroristas islâmicos. Assim, acabam tomando medidas preventórias, como proibir hijabistas de passarem pelos aeroportos com o véu ou de entrarem em bancos ou quaisquer lugares de risco usando-o (pois há muitas terroristas que escondem bombas por debaixo de todos os panos). Não importa se uma religião exige o seu uso ou não, todos precisam cumprir essas normas de segurança (inclusive as freiras e mulheres judias que cobrem os cabelos: se a polícia disser para tirar o véu, elas deverão tirar). Claro, o foco principal está nos muçulmanos, porque a ameaça vem dentro do meio <<islâmico>>, não do meio cristão ou judeu, por isso a cobrança para os muçulmanos é maior.

Levando em consideração que há uma série de argumentos que comprovam que o véu não é uma obrigação no islã (veja o link: Mais Sobre o Hijab), não há porquê as mulheres muçulmanas resistirem tanto para tirarem o véu. Entretanto, de forma alguma concordo com agressões físicas ou verbais contra as mulheres muçulmanas que o usam: para nós, do feminismo islâmico, a melhor maneira de pôr fim ao islamismo fundamentalista e opressor é por meio de revoluções e reformas ideológicas, nunca por meio de agressões ou opressões.

3) "O 'hijab' é uma forma de resistir aos fetiches do capitalismo em hiperssexualizar as mulheres!"

Sim, de fato. Existem feministas islâmicas, como a iraniana Hoda Katebi (do blog JooJoo Azad), que defendem o seu uso justamente por esse motivo. Todavia, vamos usar a visão marxista para contrapor seu uso: as mulheres islâmicas (mesmo as que vivem no Ocidente) não têm liberdade de escolha como supostamente dizem ter, pois se tiram o "hijab", são oprimidas dentro de sua própria comunidade. Defender o véu, chamando-o de feminista, é desmerecer toda a luta dos movimentos feministas que tentam dar fim ao hijab-compulsório nos países islâmicos mais conservadores (como Afeganistão, Irã, Iraque, Arábia Saudita, Paquistão, etc). Se você se diz marxista e usa o véu, tenha ciência que está ignorando o fato de que toda a classe das mulheres islâmicas são <<oprimidas>> pelo véu e que, antes de defender a "liberdade de escolha" de um indivíduo, devemos pôr fim ao sistema patriarcal opressor. Com o fim do "hijab" compulsório em <<todas>> as comunidades islâmicas do mundo, com o fim da opressão da mulher e com a reforma do islam, aí sim podemos pensar em liberdade de escolha; até lá, as mulheres muçulmanas devem somente focar na resistência contra todas as formas de opressão que foram inseridas no islam. Lembrando que existem várias formas de resistir à hipersexualização do capitalismo, basta apenas encontrar a que mais se identifique.

4) "De qualquer forma, ainda quero usar o véu."

Sinta-se a vontade, ninguém a está obrigando a nada. Expusemos nossos argumentos: se mesmo assim sente sua consciência limpa, nada podemos fazer a respeito. Recomendo, porém, que melhore sua empatia.

Muitas muçulmanas feministas (como Malala Youzafsai) utilizam o véu de maneira diferenciada, usando-o solto, mostrando os cabelos e pescoços, de modo que sejam facilmente removíveis, para lutarem contra o "hijab" compulsório sem perder a sensação de que estão descumprindo algum "mandamento" de Allah. Se optar por usar o véu desta maneira, não vejo problema (pois ainda assim está provocando os conservadores).

Caso queira mais argumentos, acesse o blog: hijab

Paz!

#Fátima

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