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quinta-feira, 29 de junho de 2017

O "HIJAB" COMO SÍMBOLO MISÓGINO E SEGREGATÓRIO

A palavra "hijab" é polissêmica, carregada de diversas significações. Segundo Mernissi (1987, p. 108-111), em árabe, a palavra "hijab", empregada para véu, significa literalmente 'cortina'. Para a autora, "[...] Essa cortina ou véu pode expressar uma dimensão espacial que delimita dois domínios distintos ou, mais simbolicamente, como o "hijab" dos sufis, o véu invisível, que impede o conhecimento divino". Existe também, ainda segundo a autora, o uso anatômico da palavra "hijab", que designa um limite e uma proteção ao mesmo tempo, daí "hijab al burkuriyya" (hijab da virgindade/hímen).

Mernissi, socióloga e muçulmana, aborda de forma distinta da maioria dos muçulmanos a questão do uso do "hijab". Para ela, o uso do "hijab" era uma simples questão de protocolo e de proteção, que comprometia apenas as mulheres do Profeta (que usavam uma cortina para conversar com homens que não eram parentes próximos) e que se expandiu às demais mulheres (como um véu na cabeça) até chegar a uma segregação sexual abrangente. 

A primeira revelação sobre o "hijab", ainda segundo Mernissi, veio a Maomé na sua noite de núpcias com Zenaib: os convidados não iam embora, e o Profeta querendo ficar a sós com sua nova esposa teria proferido o versículo 53 da sura 33 - "E se pedirem às mulheres do Profeta qualquer objeto, peçam-no através de uma cortina. E isso será mais puro para os vossos corações e para os dela". Uma atenta releitura deste versículo, segundo a autora, revela que as preocupações são de ordem da discrição: - Convidar os discípulos a terem maneiras corteses, como o de não entrar em uma casa sem pedir licença ou talvez não se demorar em ir embora. Vale lembrarmos que a mesquita era a casa do Profeta, os quartos eram contíguos, o que sugere que suas mulheres e ele não tinham muita privacidade. 

Para Mernissi, é somente pela análise do contexto social e histórico que se pode compreender por que Maomé sentiu a necessidade de proteger suas mulheres com o "hijab".

Como salienta a autora, no período em que os versículos sobre o "hijab" foram proferidos, os tempos eram de dificuldades, de guerras de expansão do islã que tentava impor-se a uma Arábia politeísta. Nesses primórdios do islã, as mulheres do Profeta estavam sendo perseguidas, assediadas por grupos que foram designados no Alcorão como hipócritas ou "munãfiqu n, pois, somente fingiam aceitar o islã. Havia a necessidade de serem protegidas e, desta forma, o uso do véu (mantas e vestes fora de casa) foi a solução encontrada. Dentro dessa visão da autora, é interessante lembramos que a primeira esposa do Profeta não usou o 'véu', pois ela morreu antes desse contexto de guerras expansionistas do islã. Para Mernissi, foi o califa Omar, um dos sucessores do Profeta e, segundo ela, um homem que não concordava com a gentileza e a atenção de Maomé para com as mulheres, quem estendeu o uso do véu para todas as mulheres com uma intenção diferente da primordial. 

Conforme Mernissi, a personalidade doce, calma e justa de Maomé não nos permite afirmar que tais versículos tenham sido deliberadamente proferidos, para produzir uma ruptura no espaço entre homens e mulheres, ruptura esta que terminou por tornar-se na atualidade uma questão polêmica. Mernissi ressalta que é necessário diferenciar o significado do uso do "hijab" no ano 5 da hégira (hijra), o que ele representava e o que ele representa hoje após várias interpretações ao longo dos séculos. 

Mernissi deixa claro que não é contra o uso do véu, desde que seja uma escolha, um livre arbítrio da mulher cobrir-se ou não. ( o ato de cobrir-se como mandamento religioso ou 'corânico' expressa coerção e nunca livre escolha) Ela não concorda e luta pelo fim da obrigatoriedade do uso do véu com forma de velar, de esconder determinados assuntos nos países árabes e barrar a democracia. Ela combate o fim do uso obrigatório do véu como política de Estados que utilizam as mulheres como atores passivos para divulgar sua mensagem dirigida aos dois sexos: "Calem-se e que não sejam vistos". 

Segundo Jomier (1992, p. 137), "[...] no início do século XX, a supressão do uso do véu passou a ser defendida por alguns países muçulmanos". Esclarece que, no Egito e Oriente Próximo, praticamente, não se usava mais o véu. Muitos países muçulmanos se alinharam a valores ocidentais. Ainda, segundo o autor, a partir de finais da década de 60, com o aparecimento dos movimentos fundamentalistas em reação ao processo de secularização, laicização já estabelecido em vários países islâmicos, o uso do véu começa a se fazer notar novamente. Com a revolução iraniana do aiatolá Khomeini em 1970, o uso do véu ressurge como símbolo forte, que marca a fronteira de uma identidade muçulmana. [...] Por outro lado, o uso do véu é, frequentemente, imposto pelas mãos de uma intolerância patriarca e misógina. Algumas facções de radicais fundamentalistas, como os talibãs no Afeganistão e os wahabistas na Arábia Saudita, manipulam o véu como uma arma de controle e exclusão da mulher, em um sentido muitas vezes oposto àquele proferido por Maomé. 

O véu tanto pode ser usado para simbolizar e reforçar o enclausuramento e a restrição à esfera privada, como pode, inclusive, ser apropriado pela mulher e empregado para negociar o seu lugar no espaço social. Neste sentido, ele permite às mulheres passarem da esfera doméstica para a esfera pública de maneira segura, e sem que haja um rompimento dramático com o passado ou com o islã. Para Pace (2005, p. 152) "o véu é um símbolo de pessoas 'protegidas' sob a tutela do poder masculino". Seria, segundo o autor, uma forma das mulheres poderem, de forma mais segura, mas não menos segregada, entrar em um espaço não reservado a elas e sim, aos homens. O espaço referido pelo autor é o da esfera pública, dos negócios, da guerra, e da política, criado e consolidado por uma tradição tribal e patriarcal para ser o 'reino' dos homens. 

Partes do estudo VÉUS SOBRE A RUA HALFELD: UM ESTUDO SOBRE AS MULHERES MUÇULMANAS DA MESQUITA DE JUIZ DE FORA E O USO DO VÉU. Por FAWZIA OLIVEIRA BAROS DA CUNHA

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Em outras perceptivas não concordo com o uso do véu porque:

1- As mulheres (apenas) não precisam de um véu na cabeça como uma 'identidade muçulmana', o islã não é uma identidade, são atos que tornam um mundo melhor e mais justo.
2- O véu não é um requisito corânico. A separação através de uma cortina (hijab) foi designado apenas as mulheres do Profeta para receberem homens em casa sem que a privacidade delas fosse prejudicada.
3- O uso de mantas e vestes para cobrir a nudez (que é sobre o que o Alcorão fala) foi sugerido para que as mulheres não fossem molestadas (sendo confundidas com escravas que não tinham proteção de um clã) hoje temos leis para nos proteger de assédios ou perseguições.
4- O véu e a cobertura do corpo inteiro, não impede agressão ou assédio; estupros também acontecem em países de maioria muçulmana; há mais de um milhão de prostitutas veladas no Paquistão. (Pense sobre isso)


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