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segunda-feira, 3 de julho de 2017

Conheça a Brigada de Honra, uma campanha organizada para silenciar debates no Islã





Asra Q. Nomani, uma ex-repórter do Wall Street Journal, é autora do livro: “Standing alone: An American Woman’s Struggle for the Soul of Islam”.

“Você tem envergonhado a comunidade”, disse, para mim, um colega muçulmano em Morgantown, West Virginia, assim que nos sentamos em Panera Bread, em 2004. “Pare de escrever”.

Então aos 38, acabei por escrever um ensaio para a seção Outlook, do Washington Post, argumentando que deveria ser permitido às mulheres rezarem nos salões principais das mesquitas, e não segregadas em pequenos espaços, tal como ocorre na maioria das mesquitas disponíveis da América.

Como uma americana nascida na Índia, cresci em uma família tolerante, porém conservadora. Na mesquita de minha cidade natal, desobedeci as regras e rezei na área reservada aos homens, cerca de 20 metros atrás dos homens reunidos para as orações de ramadã.


Mais tarde, um tribunal formado por homens tentou me banir. Um ancião sugeriu que homens me cercassem na mesquita, para que eu me assustasse. Agora, o homem da mesa estava me mandando calar a boca. “Eu não pararei de escrever”, eu disse.

Foi a primeira vez que um colega muçulmano me pressionou a abster de criticas à forma como nossa fé vem sendo praticada. Mas na década passada, muitas tentativas de censura se tornaram comuns. Isto é, em grande parte, por causa do crescimento do poder e influência da “Brigada Ghairat”, um grupo de honra que tenta silenciar o debate sobre a ideologia extremista para proteger a imagem do Islã. Mesmo as críticas construtivas recebem respostas hediondas e desproporcionais.


A campanha começou, pelo menos em sua forma atual, há dez anos, em Meca – Arábia Saudita, quando a Organização de Cooperação Islâmica – uma “mini ONU”, abrangendo 56 países com população de maioria muçulmana, mais a Autoridade Palestina – encarregou o então secretário-geral Ekmeleddin Ihsanoglu de combater a islamofobia e projetar os “verdadeiros valores do Islã”. 

Durante a década passada, surgiu uma brigada de honra livre, parcialmente financiada e apoiada pela OCI através de conferências, relatórios e comunicados anuais. Ela é formada por políticos, diplomatas, escritores, acadêmicos, blogueiros e ativistas.

Em 2007, como parte desta cartilha, a OCI lançou o Observatório da Islamofobia, um grupo de vigilância com sede em Jidá, Arábia Saudita, com o objetivo de documentar lacunas contra a fé. Seu primeiro relatório, lançado no ano seguinte, reclamou que os desenhos controversos sobre o Profeta Muhammad, feitos por artistas e editores dinamarqueses, estavam contaminando “símbolos sagrados do islamismo” de forma insultante, ofensiva e desdenhosa.

A brigada de honra começou a responsabilizar (por islamofobia) acadêmicos, escritores e outros, incluindo o ex-comissário da polícia de Nova York Ray Kelly e administradores de uma escola católica na Grã-Bretanha, que afastou uma mãe que não quis remover o niqab (véu que cobre o rosto, exceto os olhos).

"A OIC inventou o movimento anti-Islamofobia", diz Zuhdi Jasser, presidente do Fórum Islâmico Americano para a Democracia e um alvo freqüente da brigada de honra. "Estes países... pensam que detém a comunidade muçulmana e todas as interpretações do Islã”.


Juntamente com o canal oficial da Brigada de Honra, surgiu uma comunidade autodenominada “Policiais de Blasfêmia”, de blogs anônimos como o Loonwatch.com e Ikhras.com, para um grande e disparado elenco de ativistas de mídias sociais – que começou a tentar controlar debates sobre o Islã. Este corpo (de comunicação) mais amplo rotula como islamofóbicos: peritos, jornalistas e outros que se atrevem a falar de ideologia extremista na religião. Seus alvos são tão grandes como o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu quanto pequenos como eu.

Os canais oficiais e não oficiais trabalham em conjunto: assediando, ameaçando e lutando contra muçulmanos reflexivos e não-muçulmanos em todos os lugares. Eles acreditam em uma verdade importante: o Islã, praticado da Malásia a Marrocos, é uma cultura patriarcal, baseada no pudor, que valoriza a honra e a preservação da dignidade, da família à praça pública. É por isso que o bullying, muitas vezes, trabalha para silenciar as críticas do extremismo islâmico.

"As brigadas de honra são ‘colecionadoras de feridas’. Eles são os ‘jihadistas de sofá’", diz Joe Navarro, um ex-agente especial de supervisão na unidade de análise comportamental do FBI. "Eles se reúnem e coletam as feridas e injustiças infligidas contra eles para justificar o que estão fazendo. A tragédia se une para o momento, mas o ódio se une por mais tempo”


Em uma troca de e-mails com a ONU, o embaixador da OIC negou que a organização tenta silenciar discussões de problemas em comunidades muçulmanas.

Os ataques estão em toda parte. Logo após o Observatório islamofobia tomar forma, o xeque Sabah Ahmed al-Sabah, o emir do Kuwait, resmungou sobre “caricaturas difamatórias de nosso Mestre e Profeta Muhammad” e filmes que maculam a imagem do Islã, de acordo com o primeiro relatório sobre islamofobia da OCI.

A OCI ajudou a dar origem a uma cultura de vitimização. Em discursos, blogs, artigos e entrevistas amplamente difundidos na imprensa muçulmana, sua brigada de honra tem como alvo especialistas, líderes políticos e escritores - do apresentador de TV Bill Maher ao autor ateu Richard Dawkins - por insultar o Islã.


O escritor Glenn Greenwald apoiou a campanha para estigmatizar escritores e pensadores, como o neurocientista e ateu Sam Harris, como tendo "animus anti-muçulmano" apenas por criticar o Islã.



“Esses companheiros viajantes tornaram cada vez mais desagradável - e até mesmo perigoso - discutir a ligação entre a violência muçulmana e idéias religiosas específicas, como jihad, martírio e blasfêmia”, diz Harris.

Percebendo o início desta tendência em dezembro de 2007, um diplomata dos Estados Unidos em Istambul despachou um telegrama para o Conselho Nacional de Segurança, a CIA, a Agência de Inteligência de Defesa e vários escritórios do Departamento de Estado. No telegrama dizia que o chefe da OIC chamou os dinamarqueses, que fizeram desenhos animados de Muhammad, de "extremistas da liberdade de expressão" e os equipara com a al-Qaeda.


A maioria das críticas ocorrem on-line, com blogueiros anônimos que visam os supostos islamofóbicos. Não muito tempo depois do telegrama, uma rede de blogueiros lançou LoonWatch, que tenta punir cristãos, judeus, hindus, ateus e outros muçulmanos. Os blogueiros rotularam a autora somaliana Ayaan Hirsi Ali, nascida muçulmana, mas hoje uma ateia oponente do extremismo islâmico, como uma "cruzada anti-muçulmana". Robert Spencer, um crítico do islã extremista, foi chamado de "pregador de ódio vicioso" e um "sociopata de Internet". 

Os insultos podem parecer semelhantes aos trolls da Internet e seus comentários "ácidos" que você pode encontrar em qualquer blog ou site de notícias. Mas eles são mais coordenados, assustadores e persistentes.


Um alvo proeminente dos ataques da brigada de honra foi Charlie Hebdo, o jornal francês onde vários funcionários foram mortos recentemente por extremistas islâmicos. 

De acordo com algumas contas, quando os assassinos massacraram os cartunistas, eles gritaram: "Nós vingamos o profeta Muhammad". 

A OCI denunciou os assassinatos, mas em um relatório de 2012, também condenou as "sátiras islamofóbicas" da revista. O então secretário-geral, Ihsanoglu, disse que o histórico da revista, em "atacar os sentimentos muçulmanos" era "um ato ultrajante de incitação ao ódio e Abuso da liberdade de expressão ".


Charlie Hebdo não é a única evidência de que, para os defensores autodesignados da fé, um chamado para matar a mensagem pode muito facilmente se tornar um plano para matar o mensageiro. Em 2011, um oficial de segurança das forças de segurança da província de Punjab, Paquistão, assassinou Salman Taseer, após ele defender uma mulher cristã da acusação de blasfêmia. No tribunal, apoiadores colocaram flores sobre os ombros do assassino, em sinal de aprovação.

Assassinos como esse dificilmente seriam radicalizados em um clima que permite debates sobre o islã em vez de atacar suas críticas.

Mas hoje, em tantas comunidades muçulmanas, preservar-se supera o pensamento crítico e a verdade. Por isso que a reforma interna do Islã é tão difícil.

Na minha experiência, se você tentar responsabilizar a comunidade, é mais provável que seja humilhado e intimidado a ser levado a sério.

Quando Rupert Murdoch recentemente twitou: "Talvez a maioria dos muçulmanos seja pacífica, mas até que eles reconheçam e destruam o crescente câncer jihadista, eles devem ser responsabilizados", foi criticado por dizer, indelicadamente, que todos os muçulmanos eram responsáveis pelos atos de alguns. Mas acredito que assumimos responsabilidade coletiva pelos problemas em nossas comunidades.

Depois da minha ameaçadora reunião em Panera Bread, continuei defendendo os direitos das mulheres na mesquita e entre quatro paredes. Entre outras coisas, argumentava que as mulheres muçulmanas têm direito ao orgasmo, uma intimidade muitas vezes negada em sociedades com tradição de mutilação genital feminina.

Então vieram as ameaças de morte.

No outono de 2004, meus pais e meu filho me buscaram depois de falar em uma conferência. "Alguém quer matá-la", disse meu pai de trás do volante da nossa Dodge Caravan de ouro, com sua voz trêmula. 

A ameaça de morte foi postada no Muslim WakeUp!, um progressivo website, hoje extinto. O ofensor disse ao FBI que ele iria parar de me assediar, e assim o fez. 

Os insultos mais vulgares na última década me chamaram de "puta da mídia sionista", uma "Casa muçulmana" e muitos outros insultos não publicáveis.

Dois anos atrás, Zainab Al-Suwaij, diretora executiva do Congresso Islâmico Americano, foi tão agredida por ataques on-line destinados a silenciá-la que experimentou uma resposta física do estresse e ansiedade que sofreu, e acabou em uma sala de emergência. Quando a conheci em seu escritório perto da Casa Branca, ela puxou as mangas para me mostrar as marcas deixadas pelas injeções intravenosas que a equipe do hospital havia administrado para obter os fluidos necessários.

“Os ataques simplesmente acabaram comigo”, disse Al-Suwaij, cansada.

Intimidar nesta intensidade realmente funciona. Os membros observadores do rebanho estão culturalmente condicionados a "evitar em envergonhar o Islã", de modo que "citando-os publicamente por esse pecado", muitas vezes tem o efeito desejado.

Os não-muçulmanos, entretanto, têm receio de serem rotulados de "islamofóbicos". 

Portanto, ataques contra ambos os grupos conseguem apagar o discurso civil. 
Eles fazem com que governos, escritores e especialistas caminhem sobre cascas de ovos, evitando discussões importantes.

Da minha parte, continuei escrevendo, pedindo aos muçulmanos americanos que erradicassem o extremismo de nossas comunidades e argumentando que certas passagens do Alcorão são muito antiquadas para nossos tempos. Como eu vejo em: "a obrigação de 'destacar-se firmemente pela justiça, mesmo que seja contra'" (ver Alcorão 4:135)... 


4:135 Ó fiéis, sede firmes em observardes a justiça, atuando de testemunhas, por amor a Deus, ainda que o testemunho seja contra vós mesmos, contra os vossos pais ou contra os vossos parentes, seja o acusado rico ou pobre, porque a Deus incumbe protegê-los. Portanto, não sigais os vossos caprichos, para não serdes injustos; e se falseardes o vosso testemunho ou vos recusardes a prestá-lo, sabei que Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis.

Seu correlato é "'o nosso mandato divino'... 'Veja algo, diga algo'". Mas muitas vezes, esta passagem é mal utilizada como uma justificativa para nos atacar.

Enquanto ainda temos um longo caminho a percorrer, eu tenho visto progresso desde que comecei a reivindicar os direitos das mulheres nas mesquitas e desafiar o extremismo que vi nas comunidades muçulmanas americanas.

Nossa mesquita em Morgantown, uma congregação majoritariamente masculina, elegeu sua primeira mulher presidente alguns anos atrás, e ela foi amplamente aceita como líder. Mas a maioria das mulheres ainda arrastam a porta dos fundos e reza em uma varanda separada.


Há quatro anos, o Conselho de Assuntos Públicos Muçulmanos, um grupo de advocacia, anunciou programas para discutir "tópicos censurados", como homossexualidade, casamento inter-religioso e extremismo. 

Recentemente, jovens líderes muçulmanos no norte da Virgínia iniciaram uma iniciativa para criar mesquitas que promovam a assimilação, a harmonia inter-religiosa e os direitos das mulheres. No final deste mês, um novo grupo, a Mesquita das Mulheres da América, realizará um serviço de oração liderado por mulheres em Los Angeles, um evento raro nas comunidades muçulmanas.

No próximo mês, a administração Obama realizará uma conferência sobre desafiar o extremismo violento, e o presidente Obama, no ano passado, pediu às comunidades muçulmanas que "rejeitem, de forma explícita, forte e consistente, a ideologia da al-Qaeda e do ISIL". 

Mas sua administração não está enquadrando o extremismo como um problema diretamente ligado ao islamismo. No mês passado, em contraste, o presidente egípcio Abdel Fatah al-Sissi reconheceu que havia um problema de ideologia no Islã e disse: "Precisamos revolucionar nossa religião".

Quando ouvi as palavras de Sissi, pensei: finalmente.

Além dessas declarações, porém, precisamos de uma nova interpretação da lei islâmica para mudar a cultura.

Isso exigiria rejeitar as oito escolas de pensamento religioso que dominam o mundo muçulmano sunita e xiita. Eu proponho um novo ijtihad, o conceito de pensamento crítico e elevando o auto-exame sobre o discurso, as leis e as regras tóxicas baseadas no pudor. 

Tal projeto poderia tirar o poder das mãos dos clérigos, políticos e especialistas do status quo e substituí-lo por uma interpretação progressiva da fé motivada não pela defesa da honra, mas atuando de forma honrável.

Artigo original em inglês, escrito por Asra Q. Nomani.

Tradução por Ana Lúcia Meschke

Meet the honor brigade, an organized campaign to silence debate on Islam

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